Artigo - Estado de Minas - Alocação do uso do solo e da água em pivôs centrais

"A multiplicidade de variáveis envolvidas no processo de decisão resulta em um grande número de possibilidades de soluções, o que leva o produtor, muitas vezes, a tomar a decisão menos adequada, contribuindo, entre outras coisas, para reduzir a produtividade de uso da água da bacia e a eficiência de irrigação"

No Brasil, estudos indicam que são irrigados cerca de 3,44 milhões de hectares, o que corresponde a aproximadamente 5,9% da área total plantada no país. Da área total irrigada, em 40% são usados sistemas de irrigação por aspersão, com destaque para o pivô central. No Centro-Oeste, por exemplo, esse equipamento responde por cerca de 70% da irrigação.


Uma situação muito evidenciada em áreas irrigadas por pivô central no cerrado é o compartilhamento por vários pivôs centrais da estrutura física de captação e condução de água. Esse é o caso, por exemplo, verificado na bacia hidrográfica do Rio Buriti Vermelho. Os pivôs centrais inseridos na área de drenagem dessa bacia captam água de um único local cujo volume de armazenamento é definido. Durante os períodos de elevada demanda hídrica, esse volume não é suficiente para atender simultaneamente a demanda de todos os pivôs. Tal fato leva o produtor a ter que tomar decisões frequentes sobre quando finalizar a irrigação em um pivô e iniciar a irrigação do próximo.


A multiplicidade de variáveis envolvidas no processo de decisão resulta em um grande número de possibilidades de soluções, o que leva o produtor, muitas vezes, a tomar a decisão menos adequada, contribuindo, entre outras coisas, para reduzir a produtividade de uso da água da bacia e a eficiência de irrigação. Esse problema indica a necessidade de elaborar estratégias de alocação de água entre os pivôs centrais, de forma a maximizar o retorno econômico, dado um volume fixo de água disponível para irrigação.


A dificuldade na tomada de decisão sobre a melhor estratégia a ser adotada resulta da complexa interação existente entre os fatores envolvidos, condições de clima, solo e planta, e o próprio sistema de irrigação. As variações temporais das condições climáticas e de solo dificultam a avaliação experimental dos efeitos de cada um dos fatores envolvidos sobre o desempenho do sistema de irrigação. Assim, um dado sistema de irrigação pode atender com folga às necessidades hídricas da cultura em um ano e, no ano seguinte, não conseguir atender à demanda da mesma cultura. Outro aspecto importante é que nem sempre o sistema que propicia produtividade máxima da cultura é aquele que fornecerá o melhor retorno econômico.


Situações como essa oportunizam a aplicação de modelos multidisciplinares envolvendo, principalmente, economia e irrigação. A aplicação de modelos computacionais na definição da melhor estratégia de alocação de água constitui-se em uma valiosa ferramenta, ainda pouco usada, a qual possibilita ao tomador de decisão analisar o resultado de diversas estratégias e escolher a melhor opção para a sua condição.
Ferramentas que auxiliem o produtor na tomada de decisão sobre a melhor forma de alocar a água entre os pivôs centrais são de fundamental importância para o manejo dos recursos hídricos em bacias hidrográficas, uma vez que contribuem para aumentar a produtividade da água, que, em um conceito amplo, significa obter um maior valor ou benefício de cada unidade de volume de água utilizado por unidade de área.


Visando a dar uma contribuição para a gestão dos recursos hídricos em bacias hidrográficas, em especial ao caso da distribuição de água entre pivôs centrais, é que pesquisadores da Embrapa Cerrados, em parceria com a Universidade de Brasília (UnB) e a Universidade Católica de Brasília, iniciaram um projeto de pesquisa com vista a gerar ferramentas e estratégias para subsidiar os produtores agrícolas e agentes governamentais nos seus processos de tomada de decisão sobre distribuição de água entre sistemas de irrigação do tipo pivô central, associada à melhor alocação do uso da terra nesses pivôs.


No trabalho que será desenvolvido, pretende-se elaborar um modelo de programação linear do tipo manejo de irrigação econômico, para subsidiar a tomada de decisão dos produtores sobre a irrigação dos pivôs centrais. Nesse modelo, as variáveis de decisão representarão a área de cada cultura alocada em cada pivô central, manejadas em diferentes sistemas de produção na propriedade. O objetivo será a maximização do lucro, com restrições inerentes ao processo produtivo e à comercialização na propriedade agrícola, como disponibilidade de mão de obra, maquinário, insumos, capital, número de diferentes culturas e/ou sistemas de produção no mesmo pivô, demanda de mercado, produção mínima imposta por contratos e, principalmente, a água.

Lineu Neiva Rodrigues e José Mauro Magalhães Avila Paz Moreira - Pesquiadores da Embrapa Cerrados

Carlos Lima - Professor do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília

Marcelo de Oliveira Torres - Professor da Universidade Católica de Brasília

 

Jornal "Estado de Minas", 27/12/2010