Artigo - Folha de São Paulo - Edinho Silva e Evandro Ouriques

Desenvolvimento sustentável tem significado limitar efeitos do "mau desenvolvimento", como analfabetismo, pobreza e a degradação ambiental

O final desta 1ª década do século 21 é marcado por debates fundamentais, como o avanço genético e seu controle ético, a financeirização da economia globalizada, a democratização da comunicação, o controle social da internet como instrumento de informação e formação, a mobilidade humana, o conceito de nação, entre outros.


No entanto, tais debates exigem de nós reflexão anterior a respeito do que consideramos riqueza e qual o modelo de sua produção e distribuição.


Sob a égide da noção de desenvolvimento, obtivemos progressos nas condições de vida: urbanização, investimentos na saúde, melhoria dos padrões de alimentação e, consequentemente, aumento da expectativa de vida. Mas isso não foi uniforme. As desigualdades aprofundaram-se no mundo e a miséria se tornou endêmica.


Até os anos 1980, as desigualdades eram tratadas como transitórias. A urbanização e a salarização dariam conta da construção de uma sociedade mais igualitária.


A modernização do sistema produtivo internacional, com a absorção das tecnologias, gerando um novo estágio na produção de riquezas e do seu acúmulo, mostrou ao mundo um processo civilizatório inverso. Rendimentos baixos, precarização das condições de trabalho, aumento da violência, inclusive contra as crianças e mulheres.


Desse modo, a noção de desenvolvimento balizada nos atuais conceitos perde sua força e é posta em xeque. Nesse sentido, desenvolvimento sustentável tem significado limitar os efeitos do "mau desenvolvimento", como a pobreza, o analfabetismo, a corrupção e também a degradação do ambiente e do planeta, que fazem sofrer sempre os menos protegidos.


O drama deste século é romper com o modelo de produção de riqueza historicamente construído e ratificado, com a cultura do hiperconsumo que se enraizou com o capitalismo e que desde o século 19 tem a mesma lógica.


A análise do desenvolvimento sustentável exige tratar desigualmente os desiguais. Não podemos colocar lado a lado, por exemplo, um país que sempre foi protagonista na história do "desenvolvimento" e um país pobre da América Latina, que tem sofrido com a longa trajetória de acumulação internacional e cujo papel lhe foi conferido a partir de sua única fonte de riqueza: a produção de matéria-prima energética e commodities.


Do mesmo modo, devemos considerar que uma parcela significativa dos cidadãos do Sudeste do Brasil já satisfez, por muitas vezes na vida, as suas necessidades básicas, enquanto a maioria dos nordestinos e de milhões de brasileiros de todas as partes apenas agora começou a alcançar o século 20.


Estamos diante de um grande desafio e pensamos que ninguém tem a fórmula ou o caminho já definido. A construção da sustentabilidade é um processo coletivo, eminentemente político, e deve ser priorizado. O Brasil tem mostrado ao mundo que é capaz de construir novos paradigmas com as suas políticas públicas. O governo Lula é referência internacional no combate à miséria e foi protagonista na construção da agenda de Copenhague.


Podemos agora, com Dilma, a primeira mulher na Presidência da República, mostrar ao mundo que é possível gerar riqueza, distribuí-la e respeitar a natureza.


EDINHO SILVA é presidente do Partido dos Trabalhadores no Estado de São Paulo e deputado estadual eleito.


EVANDRO VIEIRA OURIQUES, mestre e doutor em comunicação e cultura, é coordenador do Núcleo de Estudos Transdisciplinares de Comunicação e Consciência da Escola de Comunicação da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).

 

Jornal "Folha de São Paulo", 21/12/2010