México é modelo rentável em manejo florestal comunitário

IXTLÁN DE JUARÉZ, México. Enquanto um sol escaldante brilhava sobre as montanhas de pinheiros em Ixtlán de Juaréz, alguns homens em um morro íngreme arrancavam montes de ervas daninhas para abrir espaço para algumas mudas de árvores. Abrir espaço para os pinheirinhos plantados no ano anterior é apenas uma das muitas ações que a cidade realiza para cuidar das árvores até elas ficarem altas, prontas para o corte 50 anos após o plantio. O povo de Ixtlán pensa a longo prazo.

"Somos donos dessa terra e tentamos conservar essa floresta para nossos filhos, nossos descendentes", disse Alejandro Vargas, apoiado em seu facão enquanto descansava. "Cuidamos da floresta porque vivemos disso há muitos anos".


Três décadas atrás, os índios zapotec do Estado de Oaxaca, no sul do México, lutaram e ganharam o direito de gerenciar a floresta em comunidade. Antes disso, empresas estatais exploravam o lugar a seu bel-prazer, sob concessões do governo federal.


Os índios lentamente criaram seu próprio negócio madeireiro e, ao mesmo tempo, começaram a estudar como proteger a floresta. Agora, as empresas da cidade empregam 300 pessoas, que cortam a madeira, produzem móveis e cuidam das florestas. Com isso, Ixtlán virou um modelo para a posse e o gerenciamento comunitário de florestas, afirmam especialistas internacionais.

Modelo. As empresas florestais comunitárias do México vão das florestas de mogno da península de Yucatán até as florestas de carvalho em Sierra Madre. Cerca de 60 negócios, incluindo Ixtlán, são certificados pelo Conselho de Manejo Florestal localizado na Alemanha, que avalia as práticas sustentáveis de manejo florestal. Entre 60% e 80% das florestas restantes do México estão sob controle comunitário, segundo Sérgio Madrid, do Conselho Cívico de Manejo Florestal Sustentável do México. "É impressionante o que está acontecendo no México", disse David Barton Bray, especialista em manejo florestal comunitário da Universidade Internacional da Flórida.


O governo mexicano apresentou seu manejo florestal comunitário nas negociações climáticas globais em Cancún, que terminou no último dia 10. Apesar das negociações turbulentas acerca da redução das emissões de carbono, as conversas sobre o pagamento aos países em desenvolvimento para que eles protejam suas florestas avançaram mais do que outras questões.

Comprometimento da comunidade é essencial


Ixtlán de Juaréz.Nos países em desenvolvimento, onde a legislação é fraca e o cumprimento dela é escasso, só restringir a exploração das florestas pouco ajuda a evitar o corte ilegal de árvores ou o desmatamento para a agricultura ou construção. "Isso só para de acontecer quando as comunidades locais se comprometem a conservar e proteger as florestas", disse David Kaimowitz, ex-diretor do Centro para a Pesquisa Internacional sobre Manejo Florestal (Cifor). "Não dá para o governo fazer isso para eles".


Um estudo recente do Cifor relatou que mais de 25% das florestas dos países em desenvolvimento agora são gerenciadas por comunidades locais. A tendência é mundial - da China ao Brasil.


Em Ixtlán, sob as tradições zapotec, todas as decisões sobre a floresta e as empresas relacionadas a ela são feitas por uma assembleia geral de 390 moradores (na maioria homens). Esses "comuneros" precisam contribuir com seu trabalho na floresta e nas empresas. "Dá para ver harmonia", disse Francisco Luna, secretário do comitê encarregado da floresta e seus negócios. "Para vivermos em paz, temos que respeitar todas as regras".

 

Jornal "O Tempo", 20/12/2010