Saneamento básico: uma lógica perversa e pouco inteligente

A divulgação da pesquisa da ONG Trata Brasil sobre os índices de coleta e tratamento de esgoto no Brasil é de assustar. O índice médio de coleta de esgoto nas 81 cidades pesquisadas, todas com 300 mil habitantes ou mais, foi da ordem de 57% da população. O volume médio de esgoto tratado em função da água consumida foi da ordem de 39%.

Diante desse quadro, é preciso questionar por que o saneamento básico é tão desprezado no país. Existe uma lógica perversa e pouco inteligente que aponta para priorização de investimentos mais visíveis. Em outras palavras: ponte, viaduto, rodovia, quadra de futebol e outras obras rendem muito mais votos do que rede de esgoto, que fica escondida sob o solo.

A perversidade reside em um fato simples: a falta de saneamento é motivo de morte, especialmente de crianças. A falta de inteligência tem a ver com os números: é mais caro fornecer atendimento médico em decorrência de doenças causadas por falta de esgotamento sanitário do que investir em saneamento básico.

O problema é que esse tipo de investimento é caro e demorado - não apresenta resultados imediatos. Normalmente, os executivos municipais aguardam iniciativas e recursos dos estaduais e federal. E, enquanto isso, o esgoto corre a céu aberto.

Mas o Legislativo também tem sua parcela de culpa. É muito raro ver emendas parlamentares
destinadas ao saneamento básico. A explicação é superficial: as obras são caras e, portanto, as emendas não são suficientes para custeá-las. A resposta também pode ser simples; basta que os deputados se reúnam em um grupo, centralizando suas emendas em uma só obra de saneamento por ano. Ou seja, tá faltando só vontade.