Painel sobre desastres climáticos evidencia lentidão nas obras de saneamento do PAC

Instituto Trata Brasil diz que só 4% das melhorias previstas foram concluídas, sendo a burocracia, projetos mal feitos e decisões judiciais os maiores entraves para a execução das obras

O setor de saneamento no Brasil passa por uma situação, no mínimo, curiosa. Nas décadas de 80 e 90 faltava recursos para melhorias nos sistemas de esgotamento e drenagem. Hoje sobra dinheiro, mas entraves burocráticos e jurídicos impedem que o mesmo seja usado para a realização das obras. O assunto veio à tona num painel sobre desastres climáticos, realizado ontem (26/09), durante o 26º Congresso Brasileiro de Engenharia Sanitária e Ambiental, promovido pela ABES na FIERGS.

Segundo o presidente do Instituto Trata Brasil, Édison Carlos, o Plano Nacional de Saneamento Básico (Plansab) prevê um gasto de R$ 270 bilhões para alcançar a universalização dos serviços de água e esgoto no Brasil até 2030. "O problema é que no ritmo em que as coisas estão acontecendo, só alcançaremos este sonho em 2060, principalmente porque o setor de drenagem está pouco contemplado", alerta.

Os problemas de saneamento ficam ainda mais evidentes diante de desastres climáticos como os que atingiram o Rio de janeiro e Santa Catarina recentemente. Para a presidente do Instituto Estadual do Ambiente do Rio de Janeiro (INEA), Marilene Ramos, é preciso investir também em sistemas de comunicação e prevenção. "Numa situação como as que vivemos no início do ano, é quase impossível não se perder vidas humanas, mas temos que trabalhar para diminuir ao máximo estas perdas", enfatizou.

Com um Produto Interno Bruto (PIB) nominal de aproximadamente US$ 1,8 trilhão, o Brasil já é a oitava maior economia do mundo, segundo a agência Bloomberg. Mas, ironicamente, o País ocupa a 67ª posição no ranking mundial de países com acesso a esgoto, de acordo com dados da Organização das Nações Unidas (ONU). A lista inclui 177 países pesquisados em todo o mundo, em 2008. Dados do Ministério das Cidades dão conta de que menos de 44% da população brasileira está ligada a uma rede de coleta de esgoto e somente um terço do esgoto coletado é tratado. Isto nos deixa abaixo de países como Etiópia, Nigéria e Sudão.

Ainda segunto o Instituto Trata Brasil, as maiores cidades brasileiras produzem, em média, 5 bilhões de litros de esgoto por dia. O resultado disto são 462 mil pacientes internados em hospitais, vítimas de alguma doença proveniente do contato com estes resíduos. "Hoje temos R$ 55 bilhões disponíveis para o setor e não conseguimos gastar nem a metade disto. Temos que aproveitar este congresso não só para chamar a atenção das autoridades, mas também para reinventar o setor e acelerar o processo de universalização se quisermos manter a meta para 2030", finalizou Édison.