Com marcas históricas, Minas recua no combate a incêndios

Minas Gerais alcançou ontem a marca histórica de 4.065 hectares de áreas verdes devastadas - o equivalente a toda a região Noroeste da capital, que tem 68 bairros - sem que nenhuma das nove aeronaves de combate a incêndios florestais tenha sido usada. A demora na licitação dos contratos para utilização dos aviões modelo air track impede que o Estado faça uso dos equipamentos.


Outros números denunciam o recuo do Estado em relação à preservação ambiental. Com a primeira posição no país em quantidade de focos de incêndios em áreas de proteção, Minas reduziu em 25% o orçamento do Programa de Prevenção e Combate a Incêndios Florestais (Previncêndio). Enquanto em 2010, foram destinados R$ 6 milhões ao programa, neste ano, os recursos não passaram de R$ 4,5 milhões. A justificativa do Estado é que no ano passado o aporte foi maior porque estavam sendo construídas bases de apoio nas cidades de Curvelo, na região Central, Januária, no Norte, e em Viçosa, na Zona da Mata.


A diretora de prevenção e combate a enchentes e incêndios florestais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Zenilde Viola, confirmou ontem que desde o ano passado, após denúncias de utilização indevida das aeronaves de combate a incêndios, os contratos foram suspensos. Segundo ela, ainda nesta semana deverá ser homologado o contrato de R$ 2,5 milhões que permitirá a utilização dos aviões terceirizados por um período de um ano. Cada aeronave tem capacidade para transportar e lançar até 6.000 litros de água numa única ação. A utilização das aeronaves é orientada por brigadistas que ficam nas áreas atingidas e que coordenam por rádio e GPS os locais onde a água deve ser lançada.


Outra baixa atrapalha o combate às chamas que em apenas quatro dias destruíram 90% do Parque Estadual do Rola-Moça, uma das principais áreas de preservação ambiental no Estado. Um dos dois helicópteros do Corpo de Bombeiros está parado, em manutenção, e só deverá voltar a ser usado no fim de semana.


"Não adianta ter aviões e todo o efetivo no parque. As condições climáticas não possibilitam nenhuma atuação. O vento muda de rumo a todo instante", justificou a diretora. Minas tem 38 parques de preservação ambiental. Desses, 14 foram atingidos por incêndios nos últimos três meses.

Saiba mais

Parque do Rola-Moça. Até ontem, 115 pessoas estavam envolvidas na operação de combate ao fogo no local.

Hidrantes. A Vale, responsável pela instalação de 16 hidrantes no Parque do Rola-Moça, informou que os equipamentos estão em pleno funcionamento na área de 1,5 km preservada pela empresa.


Ocorrências. Nos últimos 27 dias, os bombeiros atenderam 543 chamadas de incêndio em lotes vagos e em 1.931 em áreas de vegetação na região metropolitana.


Ambientalista
"Ajuda veio tarde demais"
A superintendente da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), Maria Dalce Ricas, disse que a ação, segundo ela, tardia do Corpo de Bombeiros, permitiu que o fogo fugisse ao controle. Ela denuncia que na manhã de sexta-feira, quando o incêndio no Parque Estadual da Serra do Rola-Moça teve início, apenas dois bombeiros foram enviados ao local. "Nossa equipe de dez brigadistas começou a conter o incêndio. Pedimos auxílio e apenas dois bombeiros foram ao local com abafador e bomba costal. O segredo do combate ao incêndio é a rapidez da ação. Caso contrário, perde-se o controle. Foi o que aconteceu. A ajuda veio tarde demais".


Para a ambientalista, apesar do trabalho de salvamento de vidas, falta aos bombeiros treinamento específico para combate a grandes incêndios. "Espero que diante desse desastre, do pavor dos moradores que estiveram tão próximos do fogo, o Estado tire a lição e crie um sistema eficiente. Não existe varinha de condão para adivinhar onde irá iniciar o fogo, mas precisa haver trabalho integrado".


O diretor da Associação dos Praças Policiais e Bombeiros Militares de Minas Gerais (Aspra), Luiz Gonzaga Ribeiro, disse que o número de bombeiros e de equipamentos em todo o Estado é insuficiente. Segundo ele, apenas 54 dos 853 municípios de Minas têm unidades do Corpo de Bombeiros. "Não há dúvidas de que faltam investimentos por parte do Estado. O combate às chamas é um serviço braçal. Faltam homens e caminhões auto-bombas. Se é preciso deslocar o carro do incêndio para reabastecer, significa que algo está errado".