Rua vira depósito de lixo

Prefeitura prefere economizar e anuncia que vai multar moradores

Em cada esquina, pilhas de sacos de lixo que obrigam pedestres a se desviar do trajeto normal para não ficar imersos na sujeira. A situação deixa envergonhada uma cidade que já se orgulhou de ser comparada a um jardim. No entanto, é esse o cenário em muitos bairros de Belo Horizonte, como os da Regional Centro-Sul, onde as calçadas servem, durante todo o dia, de depósito do lixo, que desde julho é recolhido à noite. A prefeitura reconhece o problema, defende a mudança por questões econômicas e logísticas e espera que o quadro mude a partir da conscientização dos moradores.
Basta uma passagem rápida pelas ruas de bairros, como Lourdes, Barro Preto e Santo Agostinho, para constatar o problema. Desde julho, a coleta na Regional Centro-Sul mudou de horário e passou a ser feita à noite. No entanto, os moradores não se acanham em descartar o lixo em plena luz do dia, talvez por se sentir à vontade devido à falta de fiscalização. Com isso, os resíduos permanecem durante horas emporcalhando a cidade à espera do caminhão da Superintendência de Limpeza Urbana (SLU).


Na esquina da Rua Guajajaras com o a Rua Juiz de Fora, no Barro Preto, sacos e mais sacos de lixo empilhados se tornaram motivo de reclamação constante. Apenas o catador Terezo Silva, de 43 anos, gosta da situação, pois tem ali ponto certo para tirar seu sustento. "Fica o dia inteiro assim e há dias com até mais. Nessa área toda tem lixo na rua", conta Silva.


A aposentada Nézia Conceição, de 84 anos, mora em frente ao lixão improvisado. Ela conta que a situação é constante. "Fica muito feio", afirma. Ela garante que respeita o horário das coletas.
Na Avenida Bias Fortes, no Bairro de Lourdes, os sacos de lixo parecem se incorporar à paisagem urbana. Por volta das 14h, não há rua que não tenha lixo espalhado pela calçada. O cheiro incomoda e o visual é dos piores, um incômodo de grandes proporções para os moradores, como atesta o advogado Danilo Leão, de 58 anos, que tem um escritório no número 532 da avenida. "Isso é muito desconfortável. Pago impostos, mas parece que a prefeitura só sabe cobrar", desabafa Leão.
Ele relata que chegou a ficar uma semana com lixo acumulado às portas do escritório, depois de ter sido avisado de que precisava fazer mudanças na calçada. "Ligava para a fiscalização e a única coisa que faziam era pedir para ligar para outro telefone", conta o advogado. No Bairro Cruzeiro, a mesma cena: grande volume de lixo acumulado em frente à Praça Jornalista Achilles Reis, situação repetida em ruas próximas, como s Piumhi.

HORA EXTRA - O diretor de Operações da SLU, Rogério Siqueira, diz que a mudança de horário ocorreu devido aos problemas gerados pelos caminhões de coleta no trânsito e também à economia com salários. "Não conseguíamos terminar o serviço no horário, pois o trânsito é muito complicado, e sempre pagávamos horas extras aos funcionários", justifica.


Siqueira ressalta que problema já foi identificado na Regional Centro-Sul. "O primeiro passo é de mobilização e conscientização, toda mudança de planejamento acontece dessa forma", diz. O diretor explica que foram dois meses de campanha informativa aos moradores antes da troca de horário. Ele garante que, a partir de janeiro, a postura do poder público será a de notificar e multar. A multa para quem deposita lixo fora do horário de coleta é de R$ 116,64.


Mas, para multar, é preciso fiscalizar. O diretor reconhece que o número de agentes não é o desejável. No entanto, Siqueira afirma que o contingente atual consegue cobrir a área da Regional Centro-Sul. A assessoria da regional informou não poder informar o número de fiscais para o serviço, mas garantiu que a fiscalização é atuante e diária.

Entulho na calçada

Além do lixo, outros problemas que se mantêm vivos em Belo Horizonte são os transtornos da construção civil, com o acúmulo de entulho nas calçadas, a poluição sonora e a ocupação indevida do espaço público. Na Rua Cuiabá, no Bairro Prado, na Região Oeste de BH, sacos cheios de areia, cerâmica e pedaços de concreto forçam os pedestres a caminhar pela rua. Próximo dali, no Bairro Gutierrez, placas de compensados lotam uma caçamba e o excesso foi empilhado na parede do prédio em reforma. No Santo Agostinho, na Região Centro-Sul, uma pilha de tijolos em frente a uma construção ocupa parte da rua, complicando o tráfego de veículos. São exemplos de cenas recorrentes. Há anos o problema é visto e há anos permanece.


Os incômodos e a falta de ação são tamanhos que a Associação de Moradores e Amigos do Bairro Santo Agostinho (Amagost) decidiu agir e, em maio, entrou com uma ação civil pública contra a prefeitura e 10 construtoras que mantêm empreendimentos na região. Segundo a Amagost, as obras causam, além do entulho, problemas como caminhões estacionados em fila dupla, barulho excessivo, destruição e ocupação dos passeios por materiais e veículos de obras. Segundo a advogada da associação, Paula Cristina Santos Lúcio, a ação pede a paralisação das obras até que seja feito um estudo de impacto ambiental adequado. "Estamos esperando a decisão do juiz, que decidirá se concederá ou não a liminar para suspensão dos empreendimentos", explica. Ela critica a postura da PBH. "O município não fiscaliza. As irregularidades são frequentes e, se fazem isso, já contam com a omissão da fiscalização", avalia.


O diretor de Operações da Superintendência de Limpeza Urbana, Rogério Siqueira, diz que o entulho derivado da construção civil é tratado com enfoque específico, pois é responsabilidade de quem produziu. Ele diz que a fiscalização, que trabalha aliada à Polícia Militar e à BHTrans, é atuante e que as multas no caso de entulho sem destinação correta variam de R$ 121 e R$ 4.036, a depender do volume. Além disso, Siqueira diz que já estão mapeados 580 pontos clandestinos de deposição de resíduos na cidade, o que resultará em melhorias para a área.

 

Jornal "Estado de Minas", 14/12/2010