Milhares contra energia nuclear

Uma multidão de japoneses participaram de uma grande manifestação no Centro de Tóquio para pedir ao governo japonês que abandone o uso da energia atômica. O protesto demonstra o quanto a população japonesa - há muito acostumada com o uso da energia nuclear - foi afetada pelo acidente de 11 de março, quando um tsunami provocou o derretimento do núcleo de três reatores do complexo Fukushima Daiichi. O desastre, o pior desde Chernobyl em 1986, espalhou radiação por uma grande área do Nordeste do Japão, forçando a retirada de cerca de 100 mil pessoas que viviam perto da usina e levantando temores sobre a contaminação de frutas e vegetais da água e dos peixes.


Os líderes do protesto, incluindo o vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1994, Kenzaburo Oe, e o músico Ryuichi Sakamoto, chamaram o protesto de "Adeus às Usinas de Energia Nuclear". Os organizadores estimaram em 60 mil o número de participantes, enquanto a polícia afirmou que 20 mil pessoas compareceram à passeata. "Agora é o único momento para realmente mudar a política nuclear e este é o melhor momento para agir", disse Satoe Sakai, de 39 anos, que viajou de Osaka, na Região Central do Japão, para se unir à manifestação. "Se não pararmos agora, provavelmente nunca iremos." "A radiação é assustadora", disse Nami Noji, uma mãe de 43 anos que foi protestar neste feriado nacional juntamente com seus filhos, de 8 e 14 anos. "Há muitas incertezas sobre a segurança da comida e eu quero um futuro seguro para meus filhos."

segurança O primeiro-ministro Yoshihiko Noda, que assumiu o cargo no início deste mês, disse que o Japão vai reativar seus reatores assim que eles passarem pelas inspeções de segurança. Mas ele também disse que o país precisa reduzir sua dependência na energia atômica no longo prazo e explorar fontes alternativas de energia, mas não estipulou objetivos específicos.


O ministro de Desastres Nucleares, Goshi Hosono, em Viena para uma reunião da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), declarou que há um consenso político no Japão para reduzir a dependência do país da energia nuclear, mas precisa haver um debate público sobre como proceder. "Talvez seja necessário um ano de discussões com o público japonês para identificar qual poderia ser a política energética", disse.

alternativas Antes do acidente, 30% da energia usada no país era produzida em usinas nucleares. O Japão é um país pobre em recursos naturais, o que torna difícil o longo processo para a conquista de formas alternativas e viáveis de produção de energia. O objetivo do governo antes do desastre era ampliar a construção de usinas, para que 50% da energia gerada, até 2030, viesse da matriz nuclear. Esse plano, contudo, foi suspenso depois do desastre.


Mari Joh, uma mulher de 64 anos que viajou da cidade de Hitachi para coletar assinaturas para uma petição pelo fechamento da usina Tokai Daini, que fica perto de sua casa, reconhece que a mudança de fonte de energia pode demorar 20 anos. "Mas, se o governo não agir decisivamente agora para estabelecer um novo curso, vamos manter o status quo", disse. "Quero usar energia natural, como a solar, a eólica e biomassa."


Uma pesquisa feita pela Associated Press e pela empresa de pesquisas GFK mostrou que 55% dos japoneses querem reduzir o número de reatores nucleares no país, enquanto 35% gostariam de deixar o número praticamente estável. Quatro por centro querem o aumento das usinas e 3% desejam a eliminação total desse tipo de energia. O levantamento, que entrevistou 1 mil adultos entre 29 de julho e 10 de agosto, tem margem de erro de 3,8 pontos percentuais para mais ou para menos.