Rua sofre com ´apagão´ de água

Belo Horizonte completou ontem 89 dias sem que uma única gota de água tenha vindo do céu. Para piorar, a umidade relativa do ar tem chegado a índices mínimos nos últimos dias, o que deixa o tempo ainda mais seco - enquanto o recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) é de pelo menos 60%, os índices de umidade registrados na capital têm variado entre 12% e 15%. É nesse cenário que moradores de uma rua do bairro Braúnas, na região da Pampulha, têm convivido com uma situação extrema: só veem água jorrar das torneiras uma vez por semana.

O desabastecimento na rua Adriano Fonseca Filho, que fica na parte alta do bairro, é um problema que se arrasta há pelo menos dois anos, mas que em agosto chegou a seu pior momento. Dos 31 dias do último mês, em apenas dez os moradores tiveram água nas 50 casas. Nesta semana, pela primeira vez em quase 40 dias, a população contou com água por dois dias seguidos.

A "fartura", no entanto, deverá durar até hoje quando técnicos da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) devem encerrar os testes para descobrir a origem do problema. Engenheiros irão fazer uma espécie de varredura na rede de abastecimento da rua para tentar confirmar a suspeita de vazamento.

Enquanto a solução não vem, o calvário perdura. Com data e hora marcados, sempre entre o início da madrugada e a manhã das terças-feiras, a escassez de água nas torneiras mudou a rotina das donas de casa. Antes mesmo de o dia clarear, é possível ouvir o som das vassouras e da máquina de lavar. A faxina tem que ser rápida, pois antes das 7h da manhã as torneiras voltam a secar. "Aqui na rua todo mundo levanta antes do sol nascer para lavar roupa. É uma rotina cansativa. Nem todo mundo pode fazer isso porque a maioria das pessoas trabalha e só tem a noite para o descanso", disse a dona de casa Maria Rosa Gertrudes, 57.

É nas poucas horas de abastecimento que os moradores correm para encher os baldes e reservar a água usada nos banhos e para consumo. Fora isso, a ordem é racionalizar o uso para administrar o "apagão" semanal. "Se gastarmos toda a água da caixa não temos como repor. Então poupamos para beber e para o banho", contou Maria Gertrudes.

Lavar o passeio reaproveitando a água da roupa e regar as plantas é quase um luxo para a agente de saúde Maria Lúcia de Moura, 41. A funcionária pública que trabalha durante o dia reclama da escassez. "É muito ruim não ter a água para fazer os trabalhos domésticos. Não consigo deixar minha casa limpa e minhas plantas estão secando".

Caminhão-pipa
Abastecimento. A Copasa disponibiliza o serviço de abastecimento de água através do uso de caminhão-pipa. O serviço é gratuito e pode ser solicitado a qualquer hora do dia através do
telefone 115.


Floramar
Fim de semana é de torneira vazia
A falta de água também tem sido um problema para moradores do bairro Floramar, na região Norte da capital. Na rua Desembargador Wagner Brandão Bueno, a escassez de água ocorre principalmente nos fins de semana. "Há pelo menos dois meses ficamos sem água o fim de semana todo. O abastecimento só volta ao normal no fim de domingo", disse a empresária Carmem Lúcia Viana Teodoro, 53.

De acordo com a Copasa, não há registro de reclamações sobre a falta de água na região, mas o caso será apurado. (GS)
Comércio
Salão de beleza conta prejuízo
A comerciante Verônica Eduardo de Oliveira conta que a escassez de água está comprometendo mais que a rotina das casas. Moradora da rua, Verônica é dona de um salão de beleza que também sofre com o desabastecimento. "Já perdi as contas de quantas clientes tive que dispensar porque não tinha água para lavar o cabelo".

Segundo ela, apenas no mês passado, o salão registrou um prejuízo de R$ 480. "Se continuar assim vou perder minha clientela".

Segundo o engenheiro de manutenção da Copasa, Flávio de Paula, que esteve no local ouvindo as reclamações dos moradores, assim que for feito o rastreamento da rede será possível resolver o problema. "Ainda não sabemos o que está comprometendo o fornecimento de água na região. Vamos verificar e resolver o mais rápido possível".

Como forma emergencial, a empresa alterou a linha de fornecimento da linha de Contagem para a da capital. (GS)