Alimentado pelo tempo seco, fogo cria cortina de fumaça sobre a BR-040, desafia perícia de motoristas e ameaça viveiro do Ibama

combinação de calor acima da média histórica e de uma seca que já dura o equivalente a três meses na Grande BH serve como combustível para incêndios que ameaçam não só áreas verdes, mas se tornam um risco também para os motoristas. Ontem, no feriado em que muitos buscavam opções para escapar do sol quente e do tempo seco, quem tentou deixar a capital pela BR-040, na saída para o Rio de Janeiro, teve que encarar uma densa cortina de fumaça provocada pelo fogo que consumia a vegetação às margens da rodovia. Nos momentos mais críticos, a nuvem engoliu os veículos que trafegavam nos dois sentidos e transformou a travessia numa viagem às cegas, em trecho de pelo menos um quilômetro, em Nova Lima, região metropolitana. As chamas, além do risco grave de acidentes, ameaçaram casas e consumiram parte da mata do Ibama. O fogo chegou a pouco mais de 100 metros do criatório de pássaros do órgão federal, que abriga cerca de 300 aves, e a 50 metros dos muros do Condomínio Lagoa do Miguelão.

O fogo começou por volta das 10h e entrou pela noite, sem que brigadistas conseguissem debelar as chamas. De manhã, enquanto carretas e automóveis desapareciam engolidos pela fumaça, apenas oito homens combatiam o incêndio, sendo cinco brigadistas da Associação Mineira de Defesa do Ambiente (Amda), baseados na Serra da Moeda, e três do Condomínio Miguelão. Os abafadores que usavam e os finos esguichos de água das bombas que traziam nas costas não eram páreo para labaredas que consumiam árvores inteiras. "Precisávamos de mangueiras dos bombeiros. Com este nosso equipamento a gente não consegue controlar um fogo perigoso desses", desabafou Pedro Alves Salgado, comandante dos brigadistas da Amda.

Mesmo diante dos riscos de acidentes e da ameaça a casas e à área do Ibama, o Corpo de Bombeiros não apareceu com seus caminhões bombas, pelo menos pela manhã, quando a fumaça tomava conta da 040. Tanto funcionários do instituto federal quanto do condomínio e brigadistas afirmavam ter acionado a corporação pelo telefone 193. A Polícia Rodoviária Federal (PRF), que tem um posto a sete quilômetros do local, também não deslocou equipes para sinalizar o trecho e alertar os motoristas sobre os perigos que enfrentariam à frente, por causa da fumaça.

As nuvens que se erguiam a mais de 10 metros, a partir do mato seco queimado, se uniam à fumaça escura de pneus de caminhões e outras peças de borracha e plástico espalhadas pelo acostamento da rodovia. O vento forte e o deslocamento de ar provocado pela passagem de grandes carretas cuidavam de espalhar chamas. Pegos de surpresa, motoristas reduziam a velocidade, ligavam faróis e o pisca-alerta, na tentativa de tornar seus veículos visíveis enquanto atravessavam a cortina de fumaça. Os brigadistas do Condomínio Miguelão tentavam cercar o fogo antes que ele atingisse os seis sítios mais próximos da mata. "Nossa prioridade é impedir que as casas sejam queimadas e que as pessoas precisem de evacuar suas chácaras", disse Arlindo Maia Filho, de 49 anos, um dos combatentes.