Amazônia tem menor desmate da história

Lula comemorou feito e disse que conferência do clima em Cancún "não vai dar em nada'; ONU rebateu críticas

O índice de desmatamento da Amazônia Legal neste ano caiu 14% em relação ao ano passado e ficou em 6.450 km2 -o menor número já registrado pelo monitoramento do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).


Ainda assim, a área desmatada em 2009-2010 é igual a quatro vezes o tamanho da cidade de São Paulo. E ficou acima do esperado pelo governo, que projetava uma taxa de até 5.000 km2.
Na região da mata atlântica, a queda média anual foi de 0,04% e, no apanhado de 2002 a 2008, de 0,25%.


Segundo o Inpe, o índice de redução de desmate na mata atlântica é baixo porque ela é o bioma mais degradado do país, já que boa parte da região é composta por áreas urbanizadas.


Segundo Gilberto Câmara, diretor do Inpe, houve redução significativa do desmatamento em Mato Grosso, no Pará e em Rondônia, Estados que costumam liderar o ranking de derrubadas,.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse que está orgulhoso da atuação de seu governo na área. "O que estamos conseguindo talvez nem seja mérito nosso, mas incompetência de quem veio antes, porque se fazia muito discurso e se colocava pouca coisa em prática", disse.


A ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, afirmou que o Brasil se aproxima da meta de reduzir o desmatamento da Amazônia em 80% até 2020. O governo cogita antecipar o cumprimento da meta para 2015.

COP-16
Lula confirmou que não irá à COP-16, conferência do clima de Cancún, no México, porque, segundo ele, a reunião "não vai dar em nada"."Não vai nenhuma grande liderança, no máximo, os ministros do Meio Ambiente. Não vai haver um avanço, uma pactuação", afirmou.


A chefe da Convenção do Clima das Nações Unidas, Christiana Figueres, reagiu: "A COP-16 nunca foi montada como reunião de chefes de Estado", afirmou ela.


Apesar dos resultados mostrados pelo Brasil na redução do desmatamento, o mecanismo que pretende compensar os países tropicais por isso, o chamado Redd, está longe de uma definição na conferência do clima de Cancún. "A experiência do Brasil, com monitoramento, transparência e participação da sociedade, mostra que dá para reduzir o desmate", diz André Muggiatti, do Greenpeace. "Mas, para que isso vingue em outros países, o Redd tem de ser aprovado."

Ilhas propõem novo protocolo na COP-16

Um dia depois de o Japão ter declarado em Cancún que não aceitaria uma segunda fase do Protocolo de Kyoto, as nações-ilhas deram o troco: propuseram na COP-16 um novo protocolo contra emissões de gases-estufa.


As ilhas são os países que mais sofrem com as mudanças climáticas. Seu objetivo é criar um tratado legalmente vinculante, algo que se perdeu de vista após a derrocada da conferência de Copenhague, no ano passado.


O novo protocolo se somaria a uma segunda fase do acordo de Kyoto e valeria para os países do chamado LCA (grupo de ações de longo prazo), que não integram Kyoto: as nações em desenvolvimento e os EUA.Estes últimos teriam metas obrigatórias de redução de emissões, comparáveis às dos signatários de Kyoto. "Nós propusemos isso há um ano e meio, achando que fosse haver um acordo legalmente vinculante em Copenhague. Aqui estamos, em mais uma COP, e isso não foi concluído", disse o negociador de Tuvalu, Ian Fry.


À Folha, Fry reconheceu que é impossível obter um acordo com peso de lei em Cancún, mas que a ideia é que isso aconteça já no ano que vem, na COP-17, em Durban, África do Sul.


O Brasil apoiou a iniciativa das ilhas. "É claro que temos de ser simpáticos à proposta", disse o embaixador Sérgio Serra. "Porém, cristalizar as metas pífias que existem hoje num protocolo não é interessante." Foi criar um grupo para debater essas ideias.


O movimento das ilhas tem pouca chance de vingar, mas é uma maneira de criar pressão política num momento em que as negociações começam a ficar tensas.


"Está tudo negro", disse um diplomata latino-americano. Segundo ele, a principal fonte de tensão são os EUA, que têm insistido em um pacote completo de decisões em Cancún -inclusive em temas espinhosos para países em desenvolvimento, como transparência em cumprimento de reduções- na linha do "ou tudo ou nada".


Ele afirma que a delegação americana está amarrada pela situação doméstica e quer empurrar para a China a culpa por um eventual fracasso na COP-16. (CA)

 

Jornal "Folha de São Paulo", 02/12/2010