ONU busca plano B que amplie pacto do clima

Solução possível seria prorrogar efeitos do tratado atual, mas ideia sofre resistência dos países desenvolvidos

Sem prazo para fechar um novo acordo global de corte de emissões, a ONU já começa a traçar um plano B para que o mundo não fique sem nenhuma proteção ao clima após 2012, quando vence o Protocolo de Kyoto.


A chefe da Convenção do Clima das Nações Unidas, Christiana Figueres, alertou ontem os delegados contra o chamado "buraco de implementação", o período entre 2012 e a entrada em vigor de um eventual novo tratado.


Tal brecha deixaria os mercados de carbono numa situação difícil, já que o preço da tonelada de CO2, que é o objeto desses mercados, depende de regulamentação internacional para ser fixado.

TOALHA JOGADA
Em Copenhague, os governos concluíram que não será possível fechar um acordo sobre metas de redução de emissões tão cedo, e resolveram concentrar os esforços em Cancún na aprovação de outros elementos do futuro tratado -deixando o tema espinhoso do corte de emissões para o futuro.
Como Kyoto levou oito anos entre assinatura e entrada em vigor, há uma possibilidade real de que o eventual novo tratado só passe a valer bem depois da expiração do protocolo atual.
Há na mesa várias propostas para contornar o problema. Uma delas seria a extensão das metas atuais dos países signatários de Kyoto (5,2% de corte em suas emissões em relação aos níveis de 1990) por mais dois anos.


Outra seria a chamada "implementação provisória", algo previsto no direito internacional, que permite pôr o tratado para funcionar mesmo sem a aprovação pelos parlamentos nacionais. "Alguns países têm dificuldades com isso", afirma o negociador-chefe do Brasil, Luiz Alberto Figueiredo.
O problema é que, para que a implementação provisória aconteça, será preciso que os países concordem com uma segunda fase de Kyoto, que dure até 2020.
Japão e Canadá já disseram que não aceitam um novo período para Kyoto. O segundo condicionou sua aceitação à adesão dos EUA -o que é impossível.


Os países em desenvolvimento, porém, estão pressionando pelo segundo período. Contam com a simpatia da União Europeia, que fixou uma meta unilateral doméstica de 20% de redução até 2020 e não perderia nada com a extensão de Kyoto. "É improvável que se aprove um segundo período de Kyoto em Cancún", diz Wendel Trio, do Greenpeace.

Com investimento, Brasil pode ter energia 93% renovável


A matriz energética brasileira pode se tornar 93% renovável em 2050 se o governo tomar as decisões de investimento corretas. A conclusão é de um relatório elaborado pelo Greenpeace e divulgado ontem em Cancún.


Segundo o documento, intitulado "Revolução Energética", o país pode eliminar as usinas a óleo e a carvão da matriz, economizando pelo menos R$ 100 bilhões no período ao adotar ações de eficiência energética.


O Brasil tem hoje a matriz energética mais limpa do mundo, gerando 84% de sua eletricidade por meio de usinas hidrelétricas, que emitem pouco gás carbônico.


O problema é que essa matriz tem ficado cada vez menos limpa. Na última década, o governo tem investido em novas térmicas a óleo e gás natural, e planeja para 2030 aumentar ainda mais a participação dessas fontes.


Usando dados do plano energético nacional para 2030 e extrapolando-o para 2050, o Greenpeace estimou que, se nada for feito, a participação das hidrelétricas na matriz cairá para 56,3%. O gás natural vai de 4,4% para 16%, e a energia nuclear, de 2,79% para 5,31%.


"O governo vai construir hidrelétricas na Amazônia até onde for possível, depois vai usar combustíveis fósseis e nuclear", diz Ricardo Baitelo, do Greenpeace, autor principal do relatório.
No cenário proposto pela ONG, as hidrelétricas caem ainda mais, para 46% em 2050 -mas são substituídas por um aumento expressivo do parque eólico (que ocuparia 20% da matriz) e das usinas de biomassa (16,6%).


Segundo Baitelo, o Brasil deveria se concentrar na energia dos ventos, que está mais competitiva: o preço do megawatt eólico nos leilões de energia mais recentes tem ficado em torno de R$ 130. É mais do que os cerca de R$ 80 da hidrelétrica de Belo Monte, mas menos do que certas usinas térmicas

 

Jornal "Folha de São Paulo", 01/12/2010