Empresas exigem definições sobre o clima

Empresas querem saber quais serão as regras do jogo com mudanças na matriz energética e nas emissões de gases

A fraca expectativa em torno de um amplo acordo climático em nível global e a ausência de lideranças de peso na Conferência do Clima da ONU (COP-16) em Cancún, no México, não aliviaram a pressão do setor privado por definições dos governos em relação ao tema.


Assim como ocorreu no ano passado às vésperas da conferência realizada em Copenhague (COP-15), várias entidades empresariais no Brasil e no mundo divulgaram cartas abertas, manifestos e documentos cobrando uma posição clara dos debatedores sobre as ações necessárias para mitigar o problema das mudanças climáticas no mundo.


Mais do que preocupação com o futuro do planeta, o que as empresas querem saber é quais serão as regras do jogo em um ambiente econômico que tende a sofrer profundas transformações, especialmente no que se refere às mudanças de matriz energética e à regulamentação das emissões de gases poluentes no setor produtivo. "Saber que algo grande vai acontecer e não enxergar a direção para onde vai essa mudança é um elemento de incerteza enorme para o setor empresarial, tendo em vista que as grandes empresas fazem seu planejamento para daqui 10 a 20 anos", diz o presidente do Instituto Ethos, Jorge Abrahão.

PARTICIPAÇÃO

Na semana passada, a CNI (Confederação Nacional da Indústria) circulou o documento "COP-16: A Contribuição da Indústria Brasileira", no qual defende, entre outros pontos, que o setor privado participe formalmente das discussões oficiais na ONU sobre mudanças climáticas. "Tendo em vista o papel central cumprido pelo setor privado na implementação de políticas de combate à mudança do clima, torna-se necessária a criação de um ambiente formal para discussões técnicas ligado ao processo negociador e a eventuais órgãos executivos dos mecanismos de financiamento e de transferência de tecnologia que deverão ser criados para implementar a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima", cobra a entidade.


A Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo) também divulgou sua carta de posicionamento sobre a COP-16, afirmando que vê com "grande apreensão" a previsão de resultados "muito aquém do necessário" na Conferência do Clima, mas que levaria suas posições ao debate mesmo assim. "A gestão deve ser compartilhada entre o governo e o setor privado e deverá prever mecanismos que permitam iniciativas empresariais serem inscritas como ações efetivas de mitigação e financiadas por fundos nacionais e/ou internacionais em um possível acordo", defende a Fiesp no item sobre as responsabilidades de cada país na redução das emissões.


E se as negociações sobre o clima não avançarem? Há limites para a atuação -e o investimento- do setor empresarial nesse tema? "O assunto está definitivamente na agenda das grandes empresas, não há como não ter planos nessa área. Até onde iremos, só o tempo poderá dizer", conclui o presidente do Instituto Ethos.

 

Jornal "Folha de São Paulo", 30/11/2010