Encontro do clima vira drama logístico

Organização do evento deixou jornalistas e ONGs isolados; ONU desiste de sugerir data para um acordo global

O esquema de segurança armado para a COP-16, a conferência do clima de Cancún (México), transformou o primeiro dia do encontro num pesadelo logístico.


Os delegados das mais de 190 nações presentes demoram entre uma hora e meia e três horas para chegar da zona de hotéis do balneário até o Moon Palace, o resort que abriga a reunião. A reportagem da Folha levou, na manhã de ontem, pouco mais de duas horas no trajeto.
No caminho, policiais armados com fuzis montavam guarda em vários pontos da estrada. Barcos da Guarda Costeira patrulhavam as lagunas e canais da cidade.


Por causa da visita do presidente mexicano, Felipe Calderón, um bloqueio policial foi formado no acesso ao Cancún Messe, o pavilhão de exposições onde os delegados precisam passar por revista antes de seguirem em ônibus credenciados (movidos a biodiesel) para o local das plenárias. Nenhum veículo que não seja da organização da COP-16 é admitido no Moon Palace, nem táxis.

TRÁFICO E CROCODILOS

O cerco ao resort pretende, primeiro, evitar que a guerra declarada pelos cartéis de traficantes ao governo do México chegue ao encontro da ONU. Segundo, impedir manifestações sociais como as do ano passado, na conferência de Copenhague.


As ONGs foram fisicamente isoladas da negociação diplomática, com seus pavilhões montados longe da área das plenárias.


A imprensa também acabou longe do calor dos fatos: o centro de mídia fica a 15 minutos de caminhada (sob sol de quase 30ºC) do local.
E não é só o a notícia que os jornalistas arriscam perder: há lagoas com crocodilos por todo o caminho.


A abertura da COP-16 foi marcada pelo reconhecimento de que não é mais possível fixar uma data para um acordo amplo e legalmente vinculante sobre o clima, mas que é possível começar a implementar alguns elementos. "Cancún não resolverá tudo, então o resultado aqui precisa ser pragmático", disse Christiana Figueres, chefe da Convenção do Clima.


Segundo ela, espera-se a aprovação de um novo fundo de financiamento do combate à mudança climática nos países pobres do planeta.


Também se espera que a reunião decida sobre formas de transferência de tecnologia, aprove o Redd (mecanismo de redução de emissões por desmatamento) e estabeleça ao menos um sinal sobre redução de emissões.


Os países em desenvolvimento querem a definição da continuidade do Protocolo de Kyoto. O Japão ontem disse que não assinaria uma segunda fase do protocolo, o que irritou esse grupo. A UE, por outro lado, parece disposta a reviver Kyoto.

Mágoas de Copenhague continuam

Um bate-boca ontem entre Bolívia e Papua-Nova Guiné logo na abertura da COP-16 mostrou que as mágoas de Copenhague da não foram esquecidas.


A Bolívia e outros países da Alba (Alternativa Bolivariana para as Américas) lideraram no ano passado a rebelião contra o Acordo de Copenhague. Como tudo precisa ser decidido por consenso, a não adesão de um país ou grupo de países pode travar a decisão.


Tramita na Convenção do Clima, porém, uma norma, chamada Regra 42, que permitirá justamente que decisões importantes sejam votadas -e não adotadas por consenso.


O papuano Kevin Conrad defendeu ontem essa regra, irritando o colega boliviano, Pablo Solón.

 

Jornal "Folha de São Paulo", 30/11/2010