RO troca madeireiro de faroeste por engenheiro

Quase todos da USP, os engenheiros florestais colidem com a tradição local de grilagem e desmatamento amador

Ainda que escorrendo suor e cercados de dezenas de insetos per capita, os responsáveis pela empresa Amata têm mais cara de quem trabalha em um escritório na Berrini do que no meio da floresta amazônica em Itapuã do Oeste (RO).


Esses profissionais, quase todos paulistas mesmo (o gerente de planejamento é paranaense), são exemplo do tipo de mão de obra qualificada da área florestal que foi para Rondônia depois que o governo federal concedeu a exploração da madeira da Floresta Nacional do Jamari à iniciativa privada.
Contrastam com o modo tradicional de atuação das madeireiras no local, ao estilo velho oeste: terra de ninguém, com grilagem e desmatamento amador, ilegal e total dos terrenos, e madeireiros andando até armados. "Quase todo mundo aqui fez Esalq", diz Roberto Waack, 50, CEO da Amata, em referência à sede do curso de engenharia florestal da USP em Piracicaba -biólogo pela USP, ele não poderia ter menos jeito de madeireiro.


Longe do Norte, até passa por um executivo qualquer: a sede comercial da Amata é mesmo na Vila Olímpia.


A empresa do desarmado Waack foi uma das três que ganharam a licitação para explorar por 40 anos a floresta do lugar de maneira sustentável (com técnicas de baixo impacto, tirando apenas as árvores maiores e deixando a mata se recuperar).

VERGONHA

As outras duas, que também já estão cortando madeira na região há quase dois meses, têm como proprietários madeireiros tradicionais de Rondônia, mas que juram que madeira sem certificação ambiental é coisa do passado. Tiveram de trazer engenheiros de fora. "Agora quero ficar só aqui na concessão. Para vender para fora agora tem de ser madeira certificada mesmo", diz Valdir Perutti, 56, da Madeflona, madeireiro desde 1991 na região, que acha mais normal ser chamado de chefe do que de CEO. "Já tive vergonha de dizer que era madeireiro, você era visto como criminoso."


Para conseguir se adaptar às exigências do contrato que assinou com governo, pediu a ajuda de um engenheiro florestal para montar uma equipe técnica. "Eu chamei um rapaz de Santa Catarina para ser meu sócio, como se fosse meu filho mesmo", diz. A Sakura, empresa que completa o trio de madeireiras na Flona, também conta com engenheiros -o diretor técnico, aliás, também veio da Esalq.
Os lotes de cada empresa variam de tamanho, mas giram em torno de 30 mil hectares cada -algo como 200 parques do Ibirapuera contínuos de floresta densa. O governo vai receber R$ 3,3 milhões em 2011 de royalties pela Flona do Jamari.


Ela é a primeira a ser explorada pelo sistema de concessões -depois do governo levar quatro anos tentando colocá-lo de pé. O Serviço Florestal promete avançar mais rápido agora com novas concessões.
Para proteger a área que exploram, as empresas contam com o próprio governo e com segurança privada -quando a reportagem chegou, um guarda uniformizado gordinho, mas com a confiança imponente de um Capitão Nascimento, se agilizou para abrir o portão.
Além disso, toda a região é vigiada por satélite. Esse controle serve tanto para os concessionários quanto para o Serviço Florestal, que pode saber se eles não estão desmatando mais do que o permitido pelo contrato.

Madeireiro pobre se sente excluído das concessões
Por trás do sistema de concessões de florestas está um órgão federal que conseguiu, ao menos até agora, ficar livre das indicações políticas.


O diretor do Serviço Florestal Brasileiro, órgão vinculado ao Ministério do Meio Ambiente que foi criado em 2006 para organizar as licitações e monitorar a atividade dos concessionários, é o engenheiro florestal Antônio Carlos Hummel, 54 anos, 27 de serviço público.
Sujeito simples e brincalhão, chama a todos de "rapaz". É do tipo que se torna o melhor amigo do garçom em minutos, sempre elogiando a temperatura da cerveja, e que brinca com o taxista comentando como é chique o celular de dois chips dele.


Hummel participa das audiências públicas para a concessão de mais florestas para a iniciativa privada. A Folha foi a Candeias do Jamari, perto de Porto Velho, para acompanhar a audiência para concessão da Flona do Jucundá.


Uma reclamação recorrente dos moradores é que, devido à alta necessidade de capital para entrar na licitação, pequenos proprietários locais ficam excluídos da exploração madeireira nas áreas de concessão.


Os editais permitem que associações e cooperativas participem das licitações, mas elas com frequência não têm dinheiro suficiente.
O preço varia, mas quem quer alugar um lote de terra do governo para explorar precisa pagar, logo de cara, cerca de R$ 1 milhão de reais (para cerca 30 mil hectares).


Valor similar precisa ser depositado como "fiança" contra eventuais quebras de contrato, e é necessário pagar também royalties sobre o lucro obtido na atividade.


Na audiência, essa questão foi levantada por Valdir da Silva, da Associação Aprucajá de pequenos proprietários de terra em Candeias do Jamari. "A associação é carente de recursos. É formada por pessoas que sofreram todo tipo de dificuldade, a gente só queria um final um pouco feliz, mas aí vem e, em vez disso, multam a gente", disse. "O Serviço Florestal não multa ninguém, deve ter sido o Ibama!", respondeu Hummel. "Podemos orientar vocês sobre como participar, existem incentivos, mas a lei não permite priorizar ninguém, nas licitações todos tem de concorrer em igualdade", disse ele, sem deixar Silva muito convencido.


Assim como Jacundá, há outras seis licitações avançando em várias regiões da Amazônia. O Serviço Florestal quer colocar 1 milhão de hectares em licitação até o final do 2011 -dez vezes a área da Flona do Jamari.


O governo estima que seria necessário licitar 40 milhões de hectares de floresta para abastecer toda a demanda brasileira de madeira.

 

Jornal "Folha de São Paulo", 25/11/2010