OPINIÃO: Consumo consciente é possível?

Podemos definir o consumismo como um fenômeno típico da cultura atual regida pela modalidade econômica do sistema capitalista. Mas essa definição não é suficiente se considerarmos seus reflexos e conseqüências diretas no estilo de vida das pessoas. Desse modo, é preciso compreender o consumismo como um problema moderno que deve ser combatido com urgência e que atinge o universo objetivo e subjetivo, individual e coletivo, merecendo atenção de autoridades públicas e intervenção educacional. Perceptível ou não, o consumismo exagerado tem criado inúmeros prejuízos ao homem e ao meio ambiente de modo geral. Podemos identificar esses prejuízos a partir da exposição de três problemas sociais recorrentes que assolam a humanidade na atualidade e que possuem nexos com os impactos socioambientais na contemporaneidade, são eles: violência generalizada, transtornos mentais e desequilíbrio sócioambiental.

O problema da violência generalizada reflete o consumismo como uma parcela de motivações que podem ser associadas ao tráfico, homicídios, roubos e delitos que vão de pequenos a grandes portes. Nesse aspecto, segundo o sociólogo Adorno (1903-1968), o desejo de possuir um objeto a qualquer preço, torna-se o triunfo de uma indústria cultural que alimenta o comércio de bens "espetaculares" e descartáveis ao tempo que o valor de uso, do limite e da renúncia deve ceder lugar ao instintual, inegociável, do ponto de vista da satisfação imediata. A questão não é simples porque incide na indiferenciação entre desejo e necessidade. A indústria cultural incentiva a confusão entre satisfação imediata e produção dos desejos. A todo o tempo perfilam sobre os nossos olhos - independentemente da classe social, nível escolar ou filiação grupal - produtos oferecendo o poder de ser o sujeito especial, importante, belo a partir de um padrão definido pelas mídias. Nesse aspecto, o sentido do belo padece de uma contradição: a padronização no intuito de "fazer parte", "ser aceito". Um retorno a estágios da infantilização primária, ao tempo que o preconceito pode encontrar solo fértil em ambientes em que "usar", "imitar", representa consumir.

Por outro lado, o consumismo está em alguma medida diretamente relacionado a alguns transtornos mentais como o ataque de ansiedade, um problema que se não tratado devidamente pode levar a comorbidades como a depressão e ataques de pânico. A relação do consumismo com algumas doenças mentais expõe graves problemas que envolvem o grau de ansiedade e a compulsão por comprar indiscriminadamente. Nesse caso, o consumo é um comportamento encobridor da angustia que atua no sentido de aliviar a partir de atos repetitivos, problemas referentes às insatisfações psíquicas - sejam elas quais forem - referentes ao desamparo humano. O psicanalista Sigmund Freud (1856-1939) contribui para pensar sobre o papel do consumismo como um mecanismo de defesa, pois realizou vários estudos referentes às necessidades de preenchimento do vazio que acompanha a vida do ser humano, marcada por perdas, renúncias e barganhas sociais no sentido de serem aceitos pela civilização e pela sociedade. Assim, "consumir para esquecer" pode ser uma frase muito mais realista do que supõe a própria publicidade.

O consumismo é responsável direto pelos milhares de dejetos despejados cotidianamente no meio ambiente. Além do lixo orgânico, são objetos e equipamentos descartáveis pelo consumo acelerado que não encontram espaço privilegiado na cadeia do desenvolvimento social sustentável como pilhas, celulares e baterias, etc.. Isso demonstra que na relação entre o homem e o trabalho, ocorre uma projeção autodestrutiva: o significado daquilo que é descartável se projeta no próprio criador, sujeito descartável pela autocoisificação através da relação entre sujeito e objeto.

No consumismo celebra-se o descartável indiscriminado da relação instintual entre o sujeito e coisificação. A objetificação humana se faz pela identificação imediata do homem (produtor e comprador), incentivado por uma cultura administrada racionalmente para vender e obter o lucro a qualquer custo. O êxito da indústria da pornografia é resultado da compulsão sado masoquista que assola os consumidores modernos. Não basta ao sujeito satisfazer suas necessidades, é preciso que seu desejo não seja completamente satisfeito. A dinâmica da compulsão obedece à seguinte lógica: quanto mais se tem, mais se quer, quanto mais se quer, menos se tem.

Para combater o consumismo é necessária uma tomada de consciência que envolve todos os setores da sociedade, sobretudo aquele referente à educação. É preciso refletir sobre a função e o significado dos objetos consumidos no sentido de suprir nossas necessidades e desejos. Isso exige repensar o sentido da formação de valores e o substrato de uma consciência que denuncie a indigência da educação no curso autodestrutivo da humanidade.

*Silvia Rosa Silva Zanolla é Doutora em Psicologia Escolar (USP). Pesquisadora do CNPq e professora da Universidade Federal de Goiás


Artigo publicado no jornal impresso Ambiente Hoje, periódico mensal da Amda, na edição de junho de 2011.