Consumo consciente: mudar de atitude pode garantir a vida no planeta

O termo "consumo consciente" já é bem conhecido, mas poucas pessoas o colocam em prática. Pesquisa realizada em 2010 pelo Instituto Akatu em parceria com o Instituto Ethos apontou o percentual de consumidores conscientes em 5%, mesmo dado de anos anteriores.
Considerando-se o aumento populacional, esse resultado significou crescimento de cerca de 500 mil consumidores com comportamento sustentável. Mas, ao mesmo tempo, a pesquisa constatou o crescimento de consumidores indiferentes às causas ambientais: o índice subiu de 25% para 37% do total de entrevistados.

O aumento de consumo repercute na geração de resíduos. Segundo José Claudio Junqueira, presidente da Feam - Fundação Estadual de Meio Ambiente de Minas Geais- na década de 70 o brasileiro gerava em média 500gr de lixo por dia. Essa quantidade hoje é de um quilo/dia para cada pessoa. A cultura do desperdício faz parte do nosso dia a dia. A catadora Ana Paula Resende que mora em Pirangussu no Sul de Minas, revela: "o que a gente mais encontra no lixo é desperdício de alimentos".

Pesquisa realizada pela FAO - Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação- mostra que o problema é mundial: mais de um bilhão de toneladas de comida vira lixo todos os anos. Isso representa um terço do total produzido para o consumo humano. E o desperdício começa dentro de casa. A artesã e mãe de três filhos adolescentes, Maria Inês Toledo vive esse problema: "eu me preocupo e calculo quanto vou usar, mas os meninos jogam comida fora. Eu brigo muito com eles por causa disto, é difícil mudar o comportamento, mas eu chego lá".

A pesquisa da Akatu e da Ethos registra bem essa situação: os consumidores "menos conscientes" tendem a ter um perfil mais jovem entre 16 a 44 anos, com escolaridade até ensino médio e fazem parte das classes C e D. Talvez por isso mesmo a catadora Ana Paula não consiga convencer os vizinhos a separar o lixo: "eles alegam que não têm tempo, que é bobeira". Em outra ponta o adolescente André Toledo de 13 anos confessa que na escola se fala o tempo todo em meio ambiente, mas em casa ele não coloca em prática e alega: "eu acho que deveria fazer mais, mas tenho preguiça".

O presidente da Feam acredita que a logística reversa prevista na Política Nacional de Resíduos, pela qual os fabricantes, importadores e comerciantes terão que recolher e dar a destinação adequada a embalagens de produtos pós-consumo trará mudanças importantes. "Acho que as pessoas vão repensar porque os preços vão aumentar e o fabricante também vai pensar em fazer produtos mais duráveis para ter menos ônus ao dar um destino final no pós-consumo", conclui Junqueira. A expectativa é que a logística reversa comece a ser praticada oficialmente a partir do primeiro trimestre de 2013.

Mas o desperdício acontece também nos locais de trabalho. Em Minas, por iniciativa da Feam, o governo implantou o programa Ambientação, visando implementar práticas ambientais nas instituições públicas, a partir de diagnóstico sobre consumo de água, energia elétrica e materiais descartáveis como papel e copos de plástico. Os números mostram resultados positivos: em 2010 cerca de 120 toneladas de resíduos foram destinadas à reciclagem, E foi constatada redução de 30% no consumo de papel e 9.5% no consumo de energia nas instituições que aderiram ao programa.

A iniciativa é louvada pela superintendente da Amda, Dalce Ricas, mas ela acredita que a administração pública ainda tem muito que avançar. "O poder público, em todos os níveis, é grande consumidor de recursos naturais e tem obrigação legal e moral de adotar políticas rígidas de contenção e racionalização de consumo, o que não faz. O programa Ambientação, por exemplo, não é obrigatório para todas as instituições do governo" critica.

Dalce Ricas lembra que além de consumir energia elétrica, papel, tinta, computadores, carros, alimentos, aviões, madeira, combustíveis fósseis, os governos federal, estadual e municipal, realizam obras de infra estrutura como estradas, barramentos, edificações, para as quais, com raras exceções, não são adotadas medidas de economia. O mesmo se aplica aos poderes legislativos e judiciários. "O máximo que fazem é coleta seletiva e é muito pouco", explica Ricas, que faz uma crítica à falta de compromisso do poder público: "em empresas que agem com responsabilidade ambiental, é cada vez mais comum exigir o mesmo de seus fornecedores. Na máquina pública, nem se fala nisto. Mas o exemplo deveria vir daí. Imagine quanto de cimento, água, energia, brita, combustíveis fósseis estão sendo gastos na transposição do Rio São Francisco?", indaga.

Padrões de consumo: melhoria da qualidade vida e impactos ambientais

No ideal de padrão de vida que temos hoje, aumento de consumo é quase sinônimo de melhoria de qualidade de vida. Mas se por um lado este consumo reflete diminuição da desigualdade social na apropriação e utilização de recursos naturais, por outro, perversamente, significa aumento dos impactos ambientais e dos riscos de colapso ambiental do planeta.

Esse lado perverso, para Dalce Ricas, explicita-se no direito inquestionável que têm, por exemplo, chineses, indianos e africanos de possuírem, como nós, carros, geladeiras, televisão, moradias bonitas e confortáveis, e por outro lado, no fato de que o planeta não suporta essa "igualdade". "Como convencer os americanos, que são ¼ da população mundial, mas consomem (e desperdiçam) um terço dos recursos disponíveis, a mudarem e assim permitirem acesso de outros povos?", pergunta.

Ela não deixa de valorizar e reconhecer a importância de avanços tecnológicos que permitem melhorias diversas na área ambiental. Mas, acredita que mesmo assim, mudar padrões de consumo, principalmente no que refere à fabricação e consumo de produtos que podem ser considerados supérfluos, e investir no controle populacional, são caminhos inevitáveis. Seja por consciência ou pela dor, à medida que as catástrofes ambientais forem piorando. "A população mundial teria no mínimo de parar de crescer e idealmente diminuir. Se isto não acontecer, temo que mesmo mudanças radicais no padrão de consumo tornem-se inúteis", pondera.

O professor do curso de Economia da UFMG, Gustavo Brito acredita que mudanças no consumo, podem gerar mudanças imediatas na produção. "O problema é que a conscientização é lenta e quando o problema ficar grande o suficiente para que as pessoas mudem a forma de consumir, pode ser tarde para reverter o impacto desse consumo", analisa Brito. Ele aponta dois caminhos: intervenção do poder público (como proibição das sacolas plásticas em BH) ou aumento de preços e tarifas para bens que têm impacto maior sobre o meio ambiente.

Com relação ao aumento dos preços, o Coordenador de Comunicação do Instituto Akatu, Stanislau Maria considera a proposta elitista. Segundo ele "20% da população mundial consome 80% dos recursos de água, energia, alimento, minérios e outros recursos naturais. Sobram 20% para serem disputados por 80% da população". E exemplifica: "um bilhão de pessoas não tem acesso à água potável no mundo". Isto é presente e não futuro.

O consumidor é o problema, mas é também a solução

De acordo com a pesquisa do Akatu, os brasileiros colocam os consumidores na penúltima posição de responsabilidade pelas questões ambientais e sociais. Apenas um em cada três brasileiros afirma que os consumidores têm responsabilidade com as questões ambientais e sociais. Para Ricas, a maior causa disto, é falta de conhecimento sobre ciclo de vida de bens móveis e imóveis que consumimos.

Ela acredita que muitos consumidores mudariam de comportamentos, se conhecessem os processos produtivos, que desde seu início, causam impactos ambientais diversos, mesmo quando sua exploração é feita de forma responsável. E aponta novamente a responsabilidade do poder público: "Se governantes tivesses mais compromisso com o futuro, mudar padrões de consumo seria "be a bá" na educação. Cansamos de propor ao governo de Minas, que utilize um pouco dos recursos que gasta com propaganda para fazer campanhas informativas e educativas", afirma.

Mas mudar atitudes é mudar a cultura e costumes. O exsecretário de Meio Ambiente de Minas Gerais, Jose Carlos Carvalho considera que hoje vivemos mais uma crise civilizatória do que uma crise econômica. Segundo ele "gerações e gerações vêm sendo formadas ao longo de séculos com alguns mitos que estão se desfazendo no século 21. Um desses mitos é o da inesgotabilidade dos recursos naturais, que criou uma cultura de desperdício, que levou ao processo de consumo absolutamente insustentável", explica.

A superintendente da Amda lembra outro "sagrado" e nefasto princípio da economia, que á a obsolescência programada, uma das mais exitosas estratégias de indução ao consumo e ao desperdício. Os produtos são fabricados com duração prédeterminada. Após algum tempo as peças têm de ser trocadas e em pouco tempo nem isto adianta. É preciso comprar outro novo.

Ninguém deveria "precisar" trocar de aparelho de TV a cada Copa do Mundo, por exemplo. Nem deveria "precisar" trocar de celular a cada seis meses. Mas o marketing, outra poderosa ferramenta, está aí para convencer que é preciso comprar o que é novo, mesmo que as diferenças sejam mínimas. E para piorar a situação, os avanços tecnológicos são inegáveis, tornando irresistível o consumo, seja por necessidade ou por status. Porém, mesmo considerando esses fatores não há dúvida de que o consumidor pode fazer a diferença, como lembra Stanislau Maria, do Instituto Akatu: "Se mais e mais pessoas pararem de trocar o celular com freqüência, a empresa vai perceber e vai começar a fabricar um celular mais durável para esse público".

De Planeta Terra a Planeta gente

Já atingimos a marca de sete bilhões de habitantes no Planeta. E para 2050 a previsão é de chegarmos a 10 bilhões de pessoas. O problema é que a população está aumentando, a necessidade de consumo também, mas o planeta continua do mesmo tamanho.

Para resolver essas questões fala-se em revolução agrícola, energia limpa, revolução tecnológica verde, mas muito pouco em controle populacional. "De maneira surpreendente a questão demográfica não entra no debate da problemática ambiental e da sustentabilidade, seja por razões religiosas, tabu, dogma. Então é fundamental incorporar ao debate da sustentabilidade a questão demográfica" avalia José Carlos Carvalho. Enfático nesta questão ele diz que o século XXI deverá ser o século da mudança de comportamento: "Se não formos capazes de mudar os paradigmas neste século, poderemos ir caminhando para o caos, e aí a própria natureza irá arbitrar. Não se esqueçam que a natureza tem os seus próprios mecanismos de autodefesa", avisa.

Dalce Ricas além de concordar, pensa que além de tabus e dogmas, imediatismo, egoísmo, individualismo, falta de informação, são fatores que impedem as pessoas de pensarem que crescimento populacional e crise ambiental planetária são versos da mesma moeda e que suas conseqüências atingirão todos nós. "Agimos como se elas nunca fossem chegar até nós. É lamentável, mas parece que os seres humanos só aprendem mesmo pela dor", completa.


Matéria publicada originalmente no Jornal Ambiente Hoje - Periódico impresso da Amda - Edição de Junho de 2011