OPINIÃO: A saída é consumir menos

De tempos em temos, o discurso ambientalista é entrecortado por eufemismos. O primeiro deles - por sinal, muito desgastado pelo uso - é o do desenvolvimento sustentável. No discurso do desenvolvimentismo sustentável, seria perfeitamente possível aliar-se o crescimento econômico à preservação dos recursos naturais. Nada há de mais hipócrita do que o discurso do desenvolvimento sustentável. Por uma razão muito simples: um é a negação total do outro. O crescimento econômico só é possível porque há recursos naturais em abundância sobre a face da Terra. Ou, invertendo-se o raciocínio: no dia em que os recursos naturais exaurirem-se, não será mais possível manter-se o crescimento da economia. É uma equação muito simples que os adeptos do desenvolvimento sustentável, por comodismo, ou por necessidades de marketing, preferem ignorar.

O segundo eufemismo é o do consumo sustentável, que tem muito da teoria do desenvolvimento sustentável. Muito tem sido divulgado sobre a necessidade de o consumidor buscar produtos que agridam menos o meio ambiente, como aqueles que trazem nas embalagens rótulos que indicam que foram produzidos segundo modelos ambientalmente corretos. Os veículos de comunicação rotineiramente, nestes tempos de aquecimento global, trazem notícias sobre o desenvolvimento de carros elétricos, o aumento do uso da energia solar e os projetos do poder público para a coleta seletiva, entre outras boas notícias. Porém, tal como o desenvolvimento sustentável, a crença de que é possível um consumo sustentável é outro eufemismo, criado para se mascarar uma idéia muito simples: a de que consumo sustentável, é, na verdade, apenas consumir menos.

Os dois eufemismos são faces de uma mesma moeda. Um sustenta o outro. Ambos sustentam um mesmo modelo econômico que está sob suspeição nos tempos de hoje - do aquecimento global e da entrada de países emergentes, como Brasil, Índia, China e África do Sul com vigor na cena econômica global. Na verdade, trata-se um modelo econômico altamente insustentável, do ponto de vista ambiental. O crescimento da economia destes países trouxe uma trágica constatação: a de que o planeta Terra não consegue suportar um nível de conforto e dignidade para todos os seus cidadãos se a referência, em termos de estilo de vida, for o padrão de consumo dos países ocidentais, particularmente os Estados Unidos.

A face visível dessa situação é a das ruas cada vez mais congestionadas por automóveis, como em Belo Horizonte. Dito de outra forma, o modelo ocidental de vida somente se sustentou porque na China, na Índia, no Brasil e na África do Sul havia uma legião de miseráveis que estavam à margem de tudo. A inclusão revelou que o cobertor era curto demais para todos.

Como se não bastasse tal situação, há outro componente igualmente grave nessa equação, que jamais irá se fechar: a de que, individualmente, ninguém se considera co-responsável pela crise ambiental, que é causada por um sistema econômico que leva as pessoas a consumirem, cada vez mais, produtos e serviços muitas vezes inúteis. Nesse sentido, o cidadão, enquanto consumidor, também é responsável pela situação, da mesma forma que as empresas e os governos, que, por sua vez, são financiados pelos impostos gerados por este mesmo sistema econômico.

Em suma, todos são responsáveis. E todos são culpados, ao mesmo tempo. Nem mesmo a mídia fica de fora. Ela talvez represente a encarnação da contradição que marca os dias atuais. Pois ao mesmo tempo em que denuncia o aquecimento global, é também o canal pelo qual, através de mensagens publicitárias, as pessoas são levadas a trocar de carro a cada ano, a ter sempre o último modelo de celular e a substituir o computador que ainda funciona razoavelmente bem por um que seja mais rápido sem que elas, necessariamente, saibam exatamente a razão da troca.

Portanto, é sempre bom se falar em mudança de hábitos de consumo. É salutar saber que existem alternativas para quem quer contribuir pouco para a crise ambiental. Porém, é bom que se tenha consciência de que a batalha é contra forças econômicas descomunais que se autosustentam e que sustentam governos e mídia. Que ninguém se iluda: às empresas interessa maximizar o consumo porque significa faturamento a mais; ao governo interessa maximizar o consumo, porque significa impostos a mais; à mídia interessa maximizar o consumo, porque significa faturamento com publicidade a mais. E são forças radicais. Por isso, o consumidor consciente de seu papel deveria também ser radical. Para isso, a receita é uma só. E muito simples: consumo consciente é consumir menos.

A gravidade do dilema ambiental em que vivemos não permite mais que tenhamos tempo para retrocessos. E é bem possível que daqui a 50 ou 100 anos, venhamos a voltar nosso olhar para o passado e fazer a seguinte pergunta: porque não fizemos enquanto ainda dava tempo?

Eu não me incluo entre os catastrofistas. Definitivamente, o mundo não vai acabar em 2012, como muitas teorias exotéricas pregam. Porém, também não estou entre aqueles que acreditam na eterna e, ainda hoje, crescente, supremacia do homem sobre a natureza. Acredito que nós, os humanos, estamos em uma rota de colisão, não com algum asteróide ou qualquer ente extraterreno, mas sim com nossos próprios semelhantes, incapazes que estamos sendo de reconhecer nossos erros como formuladores de uma civilização - a civilização humana - que não se sustenta do ponto de vista de sua perpetuação enquanto consumidora dos recursos da natureza.

* Marcelo Freitas é jornalista, membro do Conselho Diretor da Amda e Diretor de Comunicação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

Artigo publicado no jornal impresso Ambiente Hoje, periódico mensal da Amda, na edição de junho de 2011.