Futuro promissor na área de saneamento

Uma antiga máxima da política diz que obras de saneamento não dão votos, já que ficam embaixo da terra e não são vistas pela população no dia a dia, ao contrário do que ocorre com viadutos, escolas e postos de saúde. Talvez esteja aí parte da explicação para o descaso que o setor enfrentou no Brasil nas últimas décadas. De acordo com resultados da mais recente Pesquisa Nacional por Amostragem de Domicílios (Pnad), 47,6% dos domicílios brasileiros ainda não estão ligados à rede coletora de esgoto e 17,7% nem sequer têm acesso a abastecimento de água tratada.

Na fase de crescimento econômico que o Brasil atravessa, contudo, há cada vez mais o consenso de que a universalização dos serviços básicos de saneamento é um objetivo primordial para que o país possa a vir a ser classificado como nação desenvolvida. Diante desse cenário, a expectativa é que oportunidades de carreira surgirão na mesma proporção da esperada ampliação dos investimentos.

A gestão do saneamento permaneceu por muito tempo sendo feita quase que exclusivamente por engenheiros, reflexo do longo período de estagnação que o setor enfrentou. "Essa situação está mudando com a chegada de profissionais de diferentes formações", diz a presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes), Cassilda Teixeira.

Dissemina-se no mercado a visão de que, para ser um bom gestor de saneamento, é preciso entender acima de tudo de prestação de serviços, e nem tanto das particularidades técnicas das obras.

"Os engenheiros podem até sair na frente na compreensão mais ampla do setor, mas é essencial que busquem conhecimentos sólidos de gestão. Essa é uma das grandes lacunas até agora", ressalta Edison Carlos, presidente do Instituto Trata Brasil, ONG que atua no setor.

Profissionais que podem ser classificados como "pioneiros" dentro dessa nova forma de enxergar o saneamento já estão colhendo os frutos da escolha. Um exemplo é o diretor técnico da CAB Ambiental, Giuliano Vito Dragone, 37 anos.

Formado em engenharia química, ele trocou há cinco anos o cargo de gerente de engenharia e manutenção das canetas Bic pelo desafio de integrar a equipe que montaria o plano de negócio do braço do grupo Galvão na área de saneamento.

Depois de fazer MBA em gestão financeira e se especializar em processos de saneamento pelo Office Internacional de L'Eau, na França, referência na área, Dragone está no comando de quase 700 funcionários espalhados por operações em 13 cidades de São Paulo, Paraná e Mato Grosso. "Fiquei surpreso ao constatar como o setor de saneamento é apaixonante e cheio de perspectivas", diz o executivo. A empresa projeta 40% de acréscimo no faturamento este ano, chegando a R$ 140 milhões. Se tudo correr conforme o planejado, outros 700 colaboradores serão recrutados até o final do ano que vem, incluindo profissionais das mais diferentes áreas.


Quando precisou recrutar mais gestores, a CAB Ambiental quebrou alguns paradigmas do setor, como a falta de mulheres em posições de comando. Para a diretoria financeira e de relações com investidores contratou Daniela Pinho, formada em administração com foco em marketing, e colocou à frente da gestão de pessoas Rita Maeji, graduada em psicologia organizacional.


Para cargos regionais, buscou profissionais com o perfil de Eduardo Caldeira, 40 anos, também formado em engenharia química, mas com pós-graduação de administração industrial na Fundação Vanzolini e MBA em gestão de projetos na Fundação Getulio Vargas. "Eu não tinha experiência em saneamento, mas já havia trabalhado em uma concessão de gás natural. Existem muitos paralelos entre as duas situações", descreve Caldeira.


Hoje, coordenando os trabalhos da empresa em quatro municípios do interior paulista - Mirassol, Palestina, Andradina e Castilho -, ele ganha um salário 30% superior ao do emprego anterior e enxerga horizontes cada vez mais promissores. "Quando esse mercado entrar em maior evidência, terei acumulado uma boa bagagem para assumir maiores responsabilidades."

Um dos aspectos mais instigantes da carreira de gestor em saneamento é que, com exceção de algumas empresas já bem estruturadas nos principais estados, em muitos aspectos o setor está quase que inteiramente a ser desbravado. "Todo o atraso que o saneamento vive é reflexo dos anos em que a iniciativa privada permaneceu afastada", diz o coordenador do mestrado executivo em gestão de empresas da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), Marco Tulio Zanini. Um exemplo são os departamentos de recursos humanos.


Na maior parte das empresas de saneamento eles permanecem muito mais atrelados à mera administração de contratos de trabalho do que empenhados na construção de relacionamentos de longo prazo com os colaboradores, com base em pacotes de benefícios atraentes e oportunidades de crescimento.


O planejamento financeiro é outra área estratégica para as empresas do setor, pois as concessões se estendem por prazos longos e exigem um alto investimento inicial. Os departamentos de pesquisa e desenvolvimento, sustentabilidade e relacionamento com os clientes também deverão ganhar importância.


Com a maior atenção destinada ao setor, começam a se multiplicar as possibilidades para quem pretende se especializar em saneamento no Brasil. O Sindicato Nacional das Concessionárias Privadas de Serviços Públicos de Água e Esgoto (Sindcon) tem um projeto de capacitação de profissionais que está em fase de desenvolvimento e a Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Abes) acaba de estabelecer uma parceria com a Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) para um curso de especialização na área.


Além disso, há cursos de pósgraduação em saneamento em importantes instituições públicas de ensino superior, como o Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo (USP), o campus de Bauru da Universidade Estadual Paulista (Unesp), a Universidade Federal de São Carlos, a Universidade de Brasília (UnB) e as Universidades Federais do Mato Grosso (UFMT), do Rio Grande do Sul (UFRGS) e de Minas Gerais (UFMG).


Instituições privadas, como as Faculdades Logatti (em Araraquara, SP) e a Faculdade Leão Sampaio (em Juazeiro do Norte, CE), oferecem cursos mais voltados à gestão. Para acompanhar esse movimento, há no mercado a expectativa de que as melhores escolas de negócios do país desenvolvam MBAs em saneamento nos próximos anos