Editorial - Folha de São Paulo - Metas sanitárias

O Estado de São Paulo anuncia investimentos de quase R$ 100 milhões em um centro de tratamento de esgoto em Campos do Jordão, um dos destinos turísticos favoritos da classe média paulista nos meses de inverno. A boa notícia terminou por chamar a atenção para os problemas de saneamento básico no município -que reproduzem, em escala reduzida, paradoxos nacionais.


Na "Suíça brasileira", como também é conhecida a cidade, apenas 44% dos imóveis têm acesso à rede esgoto. Todo o material acaba sendo despejado em rios e córregos sem passar pelos devidos processos de tratamento, destinados a eliminar impurezas de forma mais rápida e devolver água limpa ao ambiente.


Em todo o país, apenas 45,7% dos domicílios contam com redes de esgotos -destes, não mais de um terço passa por tratamento em estações purificadoras.


É comum que se expliquem os baixos investimentos públicos em saneamento por sua falta de visibilidade -canos e redes coletoras não são, por definição, obras aparentes para os eleitores. Mas em toda parte, e também em Campos do Jordão, a precariedade do setor não passa despercebida.
O ambiente "europeu" que atrai ao polo turístico visitantes de alta renda não resiste a uma inspeção um pouco mais cuidadosa da realidade. Que se impõe, por exemplo, pelo mau cheiro dos córregos.
O contraste ilustra problemas mais amplos do país. Ao mesmo tempo em que a renda per capita aumenta, o Brasil não consegue se livrar de males característicos das nações mais pobres do planeta, como doenças infecciosas e parasitárias, cuja transmissão é facilitada pela precária rede de esgoto.
Não haverá solução para essas contradições sem que o Estado amplie a sua capacidade de investir e atraia a iniciativa privada para o setor. O governo federal acena com gastos da ordem de R$ 10 bilhões ao ano em saneamento.


É preciso realizá-los, mas também estabelecer metas claras de desempenho, como esta Folha já propôs neste mesmo espaço. Um objetivo mínimo seria levar o recolhimento de esgoto a pelo menos toda a população urbana do país -cerca de 80% dos brasileiros.

Jornal "Folha de São Paulo", 16/11/2010