Mapa do subsolo conclui que fontes de água estão em risco

Há nove anos, cientistas norte-americanos iniciaram um projeto para mapear através de satélites as águas subterrâneas do planeta. Agora, os resultados do Experimento de Clima e Recuperação de Gravidade, conhecido em inglês como Grace, apontam para um futuro ameaçador: a principal fonte de abastecimento de água para consumo humano está cada vez mais escassa, e o problema é mais grave onde as reservas são compartilhadas e há conflitos territoriais.


Para chegar a essa conclusão, os cientistas utilizaram dois satélites que viajam nas órbitas polares e que produzem alguns dos dados mais precisos já coletados sobre as diferenças gravitacionais do planeta. Com as variações, os especialistas conseguem identificar pontos problemáticos em torno do globo onde as pessoas realizam práticas insustentáveis sobre a água subterrânea - os aquíferos que alimentam fontes e nascentes de rios do mundo.


Os cientistas descobriram problemas em lugares muito discrepantes, como o norte da África, o norte e o nordeste da China, e os vales da Califórnia, que são polo de uma indústria agrícola de US$ 30 bilhões.


Jay Famiglietti, diretor do Centro de Modelagem Hidrológica da Universidade da Califórnia, disse que os dados dos satélites gêmeos do Grace estão redefinindo o campo da hidrologia, cada vez mais crítico com a mudança climática e o crescimento da população. "O Grace analisa toda a mudança no gelo, na neve e a conservação da água, toda umidade do solo, toda água subterrânea e superficial", explica Famiglietti.


Segundo ele, existem questões sensíveis em regiões áridas de todo o mundo, onde bacias de águas subterrâneas geralmente são compartilhadas por vizinhos nada amigáveis - Índia e Paquistão, Tunísia e Líbia ou Israel, Jordânia, Líbano, Síria e territórios palestinos - que tendem a gerar conflito e, consequentemente, escassez.


Interesses. No entanto, diz Famiglietti, os governantes têm ficado com o pé atrás na hora de aceitar as descobertas. Os gestores das águas da Califórnia, por exemplo, estão céticos quanto à informação de que, de outubro de 2003 a março de 2010, os aquíferos do Vale Central do Estado caíram para 25 milhões de acres-pés - menos que o suficiente para encher o Lago Mead, maior reservatório de água dos EUA.


Greg Zlotnick, membro da Associação das Agências de Água da Califórnia, disse que os gestores temiam que os dados pudessem ser modificados em benefício de terceiros no cabo de guerra da Califórnia acerca das fontes escassas de água. "Existe muita paranoia dos especialistas em política, que dizem que é preciso regulamentar tudinho" , disse ele.

Experimento. As políticas da água não eram o objetivo de Famiglietti quando ele ouviu sobre o Grace pela primeira vez. Em 1992, ao se candidatar a um emprego na Universidade do Texas, ele foi entrevistado por Clark Wilson, geofísico que descreveu os planos para a realização de um experimento para medir as variações no campo gravitacional da Terra. "Entrei na sala dele e ele pegou um pedaço de papel dizendo: ‘Estou tentando entender como a distribuição da água faz a Terra se movimentar'", disse Famiglietti. " Fiquei impressionado e instantaneamente encantado com o cara. Eu disse: ‘Isso é inacreditável, abre todo um novo campo de estudo'".


Naquela época, o experimento Grace estava sendo desenvolvido pela Agência Espacial Norte-Americana (Nasa) e a dupla descobriu que os dados dos satélites eram confiáveis e suportariam estudos sobre as águas subterrâneas. "Entramos em um campo de estudo bem aberto", disse Matt Rodell, pesquisador da Nasa. "Ficamos igual criança em loja de doce. Tinha coisa demais a ser feita".

FOTO: Ann Johansson/The New York Times

O cientista Jay Famiglietti tenta quantificar a água subterrâneaAnn Johansson/The New York Times
O cientista Jay Famiglietti tenta quantificar a água subterrânea
Limitação
Satélites avaliam quantidade, mas apenas de áreas maiores
Por décadas, as medidas de água subterrânea nos EUA foram feitas a partir de pontos na superfície da Terra – através de sondagens em tempo real em 1.383 poços de observação e leituras diárias nos outros 5.908. Essas leituras são complementadas por medições dos níveis de água em centenas de milhares de outros poços, valas e escavações. A nova opção de medida usando-se a gravidade tem dois satélites, que viajam nas órbitas polares a 217 km de distância um do outro. Um bombardeia o outro com micro-ondas que calibram a distância entre eles até intervalos de largura menores que um fio de cabelo humano. A distância entre eles se traduz em uma medida da superfície em uma região específica.


Separar a água subterrânea de outros tipos de umidade que afetam a gravidade requer um pequeno cálculo e a inclusão de informações sobre a precipitação, além do escoamento obtido em estudos de superfície ou modelos de computador.


Mas os dados dos satélites também têm seus limites. Os dados gravitacionais ficam mais escassos quando a área examinada fica menor. E, em áreas menores que 194 mil km², fica mais difícil chegar a conclusões sobre os suprimentos de água. "O Grace dá um panorama geral", disse Felix Landerer, hidrólogo do Laboratório de Propulsão a Jato. "Cada gestor de águas hoje tem alguns poços para monitorar em um distrito específico. Por isso, é muito difícil reunir essas informações todas". (FB/NYT)


Poço de descarga de água subterrânea no Cross Valley, nos EUA
Poço de descarga de água subterrânea no Cross Valley, nos EUA
Pesquisa só foi possível após a Guerra Fria
IRVINE. Os dois satélites do Grace foram concebidos por uma grupo de cientistas do Centro de Pesquisa Espacial da Universidade do Texas. Dez anos depois, eles foram lançados da Rússia a bordo de um míssil em uma colaboração entre a Nasa e o Centro Aeroespacial Alemão. Obter os dados para propósitos de pesquisa geral teria sido impossível antes do final da Guerra Fria, pois os mapas indicando os movimentos normais do campo gravitacional da Terra eram usados para estabelecer as miras de mísseis de longo alcance e, portanto, eram sigilosos.