Um a cada quatro sacos de lixo vai para local impróprio

Dados são de associação de empresas coletoras de lixo; agência estatal paulista vê avanço na destinação dos detritos

DE SÃO PAULO Enquanto as discussões mais avançadas sobre a destinação do lixo se concentram na reciclagem, São Paulo, o Estado mais rico do país, ainda é obrigado a lidar com um problema bem mais arcaico: os lixões a céu aberto.


De cada quatro sacos de lixo residencial coletados pelos serviços oficiais, um vai parar em local inadequado, segundo dados da Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais).


Além dos lixões, vários aterros precários espalhados pelo Estado contaminam o ambiente e são fonte de risco à saúde da população.
São 11.800 toneladas de resíduos ao dia que não recebem o tratamento devido, diz o estudo da associação. O valor representa 24,9% das 49.323 toneladas coletadas todos os dias nas residências. "Existem problemas graves inclusive na Grande São Paulo", afirma Carlos Silva, diretor-executivo da instituição, que reúne várias empresas do setor de limpeza.

OUTROS CRITÉRIOS


Diferentemente da Abrelpe, que divide depósitos em adequados e inadequados, a Cetesb, empresa ambiental paulista, adota três classificações: aterros adequados, controlados e inadequados.
Dos 645 municípios paulistas, 65,9%, têm aterros adequados, 1% tem inadequado e o restante está em situação controlada.


Na região metropolitana, segundo esses critérios, existem seis aterros controlados. Outros cinco são adequados.


Controlado quer dizer que o depósito está melhorando, mas ainda degrada o meio ambiente. É caso do aterro Pajoan, em Itaquaquecetuba. Apesar da indicação oficial de que está melhorando, o local ainda é um problema crônico da Grande São Paulo.


Desde 2007, ele tem funcionado a base de licenças precárias dadas pela Cetesb -procedimento considerado "normal" pela instituição.


Os donos do grupo que administram o local dizem que respeitam todas as normas e que o aterro não causa riscos.


O depósito, porém, está esgotado. Há um projeto da construção de outro ao lado.
Os planos são contestados pelo Ministério da Defesa, que diz que o local está dentro da área de segurança do aeroporto de Cumbica, onde não é permitido existir nenhuma atividade que seja foco de atração de pássaros.


A própria Cetesb diz que há registros frequentes de urubus e gaivotas na área do aterro. Os gestores do Pajoan, porém, dizem não haver prejuízo ao tráfego aéreo.

Catador encara risco no pior lixão paulista

Vargem Grande do Sul, no interior do Estado, tem a pior nota dada pela Cetesb na destinação final de resíduos. Cenário é de desolação; material hospitalar é incendiado e fumaça acaba inalada por quem busca ali um sustento.

Catadores sem luvas nem equipamentos de segurança trabalham noite e dia no lixão em meio a seringas descartadas, caixas de remédios, gazes usadas, CDs, urubus, garças e cachorros.
Na entrada, o aviso: "Proibido jogar lixo neste local". A frase "sujeito a penalidades de acordo com a lei" sumiu.


Vargem Grande do Sul, cidade do interior paulista a 234 km da capital, teve a pior nota da Cetesb, empresa ambiental do Estado, em relação à destinação do lixo: 1,8.
Para ser considerado em situação controlada, é preciso que o aterro recebe nota mínima de 6,1. Para ser adequado, no mínimo 8,1.


O local recebe 20 toneladas de lixo por dia. O cenário é de desolação. Lixo hospitalar é queimado sem controle.


O lixão recebe todo tipo de material há 33 anos e fica entre uma nascente, um canavial, uma plantação de laranja e uma área de mata nativa.
Está a 14 km do centro da cidade. Parte do lixo é incendiada. A fumaça é respirada pelos catadores. Ao menos 12 pessoas arriscam a saúde ali.


Com 39 mil habitantes e uma economia baseada no cultivo de batatas, a cidade tem um novo aterro sanitário quase pronto nos padrões exigidos pela Cetesb, mas uma ação civil movida por um vizinho impede seu uso.


O aterro, de R$ 1,5 milhão, está parado há um ano. A Justiça exige um estudo de impacto ambiental para liberá-lo, mas a Cetesb alega que, por lei estadual, cidades que produzem até 25 toneladas de lixo por dia não precisam de tal documento.


O prefeito Amarildo Duzi Moraes (PSDB) afirma estar de "mãos atadas". "Você não imagina o quanto é doído para mim. Enquanto a Justiça não suspender a liminar, não consigo resolver", diz ele.

CRIANÇAS


Os catadores dizem arrecadar cerca de R$ 1.000 por mês com a reciclagem irregular e arriscada. "Já achei de tudo aqui. Outro dia achei e assisti o filme Avatar", diz Luís Carlos Cassian, 34, que trabalha ali há três anos.


Em fevereiro, o Ministério do Trabalho encontrou crianças trabalhando no lixão.
A prefeitura diz que são distribuídos equipamentos de segurança, mas os catadores resistem a usá-los. O prefeito afirma ainda que guardas municipais impedem a presença de crianças.


A prefeitura nega despejar lixo hospitalar no local e diz ter aprovado uma lei para regular esse tipo de despejo.

No limite, principal depósito do Rio ameaça baía de Guanabara

DO RIO

Principal destino do lixo produzido no Estado do Rio, o aterro de Jardim Gramacho, em Duque de Caxias, está no limite e ameaça a baía de Guanabara. A alternativa para as 8 mil toneladas diárias despejadas ali, no entanto, é alvo de embate na Justiça.


A Prefeitura do Rio adotou o aterro sanitário de Seropédica, ainda em construção, como o novo destino para o lixo da capital. A administração da cidade vizinha, porém, tenta revogar a licença ambiental emitida, temendo contaminação de aquífero próximo ao local escolhido.


Classificado como aterro controlado, Gramacho recebe o lixo de cinco cidades.

 

Jornal "Folha de São Paulo", 03/11/2010