Governo decide abolir a energia nuclear

A quarta maior economia do mundo anunciou ontem que abandonará a energia nuclear. Em uma decisão tomada após uma longa reunião, a Alemanha revelou que fechará todas as 17 usinas atômicas do país até 2022. É a primeira grande potência industrial a tomar tal ação, classificada pelo governo de "irreversível". O governo formalizará a medida em 6 de julho e já desperta dúvidas sobre como o país vai repor essa fonte energética, que corresponde a 23% de sua matriz.

Segundo o ministro alemão do Meio Ambiente, Norbert Rottgen, 14 dos 17 reatores estarão desativados até o fim de 2021. Os três últimos - os mais novos - estarão em serviço até, no máximo, 2022. Após a catástrofe da central nuclear japonesa de Fukushima, em março, a Alemanha determinou o desligamento de sete reatores mais antigos do país da rede de produção de energia elétrica. A execução da ordem dependia apenas de uma auditoria solicitada pela primeira-ministra, Angela Merkel. Os sete reatores, além de outro que apresentou falhas, não serão reativados.

CONSULTAS O governo chegou à deliberação após uma reunião de quase 13 horas, entre a noite de domingo e manhã de ontem, na qual participaram membros do gabinete, além de representantes dos partidos do governo e da oposição. "Após longas consultas, a coalizão chegou a um acordo para dar fim ao recurso à energia elétrica", declarou Rottegen. "Nosso sistema de energia deve e pode ser fundamentalmente modificado", salientou Merkel.

Berlim tem agora a missão de encontrar uma forma de produzir energia suficiente em outras fontes, a fim de substituir a atômica. Ontem, o governo não detalhou como pretende executar essa decisão. O Partido Verde, que viu sua popularidade disparar após o acidente nuclear no Japão, insiste na necessidade de recorrer às energias renováveis, ao invés das centrais de carvão. "Não se trata apenas de saber como sairemos da energia nuclear, mas também a que velocidade, e com que ambição, ingressamos nas energias renováveis", declarou Claudia Roth, uma das líderes dos Verdes, à imprensa.

Dona de uma economia que é uma verdadeira locomotiva, a Alemanha terá de equilibrar a transição de suas fontes energéticas sem deixar cair o ritmo de sua produção industrial, que cresce a 9% ao ano e mantém o país na 24ª posição no ranking mundial. Para Estevão Martins, professor do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB), o governo resolveu bancar as implicações que envolvem a troca da matriz energética a correr o risco de um acidente nuclear. "É uma decisão corajosa", disse.

Arquivo Reuters
Vista aérea da central de Philippsburg. A fonte atômica é responsável por cerca de 25% de toda a matriz energética alemã

PESQUISA A Alemanha, que já esteve abaixo da média de utilização de energias renováveis da União Europeia, tem investido pesado no setor. Em 2010, a matriz nuclear representou 16,9% do consumo bruto de energia elétrica da Alemanha - de acordo com o Departamento Federal de Estatísticas (Destatis), um índice quatro vezes maior que o registrado em 1990. Em 18 de maio, os ministérios de Economia, Meio Ambiente e Educação alemães anunciaram um programa de fomento à pesquisa e ao desenvolvimento de redes inteligentes de armazenamento e distribuição de eletricidade no valor de 200 milhões de euros. O investimento tem por objetivo otimizar a infra-estrutura energética para comportar o aumento gradual da participação de energias renováveis.

Com a decisão de ontem, Merkel retomou uma das promessas mais importantes de seu segundo mandato. No fim do ano passado, a chanceler aprovou uma prorrogação de 12 anos em média para a duração legal da exploração dos reatores da Alemanha. A medida provocou uma forte reação no país, que se traduziu em grandes manifestações. A última delas foi no sábado e reuniu 160 mil pessoas em 20 cidades. Em março, no entanto, Merkel já havia determinado a paralisação imediata das centrais mais antigas, à luz da catástrofe nuclear de Fukushima. A medida foi considerada uma manobra oportunista e não impediu a derrota dos conservadores para os Verdes, nas eleições regionais de Baden-Württemberg, governado por eles há mais de 50 anos.