Código Florestal abre novas feridas

As discussões sobre o novo Código Florestal deixaram à mostra feridas abertas ao longo dos anos e a desafinação de líderes partidários da base com o governo. Nas tentativas de costurar acordos, e diante da necessidade de contar nos dedos os aliados, o Planalto se deparou com atuações pouco convincentes e agora paga o preço das próprias escolhas. Um dos buracos abertos durante as negociações envolve o líder do PT, Paulo Teixeira (PT-SP), e o comando palaciano.

A atuação do petista foi criticada em conversas de governistas do primeiro escalão durante as tentativas de acordo. O ministro da Casa Civil, Antonio Palocci, comentou que o líder não se empenhou como devia nas discussões em torno do tema e abriu muitas brechas para que deputados ruralistas da sigla fizessem pregações contra as pretensões governistas. O petista também foi enquadrado quando anunciou que iria desistir da briga na Câmara e mandar o debate para o Senado. As declarações foram interpretadas como tentativa de lavar as mãos e evitar o próprio desgaste dentro da bancada.

O modo de operar do líder petista também não tem agradado ao líder do governo, Cândido Vacarezza (PT-SP), que não tem encontrado nele o amparo para impor a vontade do Planalto aos seus liderados. Os próprios petistas que ensaiavam resistências às ordens governistas comentam que Teixeira ouvia a todos e estava respeitando as questões regionais.

Quem também tem demonstrado incômodo nas relações com o Planalto é o líder do PMDB, Henrique Eduardo Alves (RN). Ao receber a ordem de trabalhar pelo adiamento da votação do novo Código na última hora, Alves disse imediatamente que não o faria. Minutos depois, mudou de ideia e anunciou a mudança, afirmando estar contrariado. No plenário, se queixou a peemedebistas, mas ressaltou que obedecer naquela hora era uma forma de mostrar a importância do partido.

Duas horas antes, o líder peemedebista já tinha enfrentado o governo ao anunciar que votaria contra a possibilidade de edição de decreto presidencial para regulamentar áreas de preservação permanente. Foi preciso um telefonema insistente de Antonio Palocci para convencê-lo. Na conversa, o ministro pediu um voto de confiança que, ao que parece, Alves aceitou dar. Em jogo nessa negociação estão dezenas de cargos do segundo escalão pleiteados pelo PMDB.

Mais feridas Fora da disputa que envolve o poder e a barganha palaciana, divergências antigas se tornaram públicas. Uma delas, contida e somente pronunciada nas mais reservadas conversas, envolve a ex-ministra Marina Silva e o deputado Aldo Rebelo (PCdoB-SP), que também foi ministro no governo Lula.

Depois de saber que por meio do Twitter a ex-ministra disse que ele havia colocado "pegadinhas" no texto da nova legislação ambiental, o parlamentar atacou: "Quem fraudou contrabando de madeira foi o marido de Marina Silva. Ele foi defendido por mim nesta Casa, quando eu era líder do governo e evitei o depoimento dele". O desabafo de Rebelo se referia ao ano de 2003, quando atuava na liderança e recebeu a missão de abortar o movimento de deputados da Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara para investigar o marido da então ministra do Meio Ambiente.

As acusações eram de que o técnico agrícola Fábio Vaz de Lima estaria envolvido com uma doação irregular feita pelo Ibama. O órgão doou 6 mil toras de mogno apreendidos para a ONG Fase (Federação de Órgãos para a Assistência Social e Educacional), uma das integrantes do Grupo de Trabalho Amazônico (GTA), do qual o marido de Marina era um influente integrante. De acordo com o relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o caso, a doação ignorou os princípios da isonomia, impessoalidade e publicidade.

Depois de lembrar o caso publicamente ao atacar a ex-ministra, Aldo Rebelo se dirigiu para o canto do plenário onde um grupo de deputados o olhava atônitos. "O que foi? Não sabiam?", reagiu.