Cientistas da UFMG desenvolvem produtos para produção de combustíveis

Uma nova e premiada plataforma tecnológica desenvolvida por pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) é capaz de diminuir o custo produtivo de petróleo, o que é considerado essencial para manter competitivo mundialmente o combustível que será produzido a partir do pré-sal. Enquanto o oba-oba em torno da descoberta das reservas no litoral brasileiro coloca o país nos holofotes do interesse mundial na área de petróleo, uma grave barreira pode estragar a festa: os especialistas garantem que a profundidade em que se encontram as reservas pode impactar muito o custo de produção dos combustíveis e tornar a história inteira pouco promissora. De quebra, os produtos desenvolvidos na UFMG são mais ecológicos que aqueles usados hoje, no mercado.

"Desenvolvemos três produtos a partir de uma plataforma tecnológica que chamamos de Surface Nano Growth (SNG)", explica o pesquisador Aluir Dias Purceno, do Grupo de Tecnologias Ambientais (GTA) do Departamento de Química da universidade. De acordo com ele, com a nova tecnologia é possível controlar a polaridade dos materiais criados: isso significa que os cientistas têm controle preciso na produção de substâncias que repelem água e têm afinidade com o óleo, ou com os dois líquidos ao mesmo tempo. "Essa propriedade, associada ao magnetismo desenvolvido durante a produção faz com que esses produtos sejam únicos", defende Dias.

A equipe do GTA desenvolveu uma nanoesponja capaz de absorver óleo na superfície de ambientes aquáticos com alta eficiencia e baixo custo. "Absorve óleo em situações como o derramamento de petróleo que ocorreu recentemente no Golfo do México", exemplifica o doutorando.

A nanoesponja tem menor custo, já que sua matéria prima é a vermiculita, um mineral que o Brasil produz em larga escala a preço muito baixo. "Além disso, ela tem a vantagem de possibilitar a recuperação do óleo absorvido após o uso, diminuindo em até 20 vezes o volume de resíduo contaminado a ser incinerado ou disposto em aterros apropriados", acrescenta Aluir Dias.

Outro produto das pesquisas foi chamado de nanoamphil, combinação de bases com afinidade por água como a vermiculita, lama vermelha e crisotila (matérias primas abundantes e baratas) com nanotubos de carbono e núcleos metálicos. A associação desses três componentes gera material magnético com afinidade tanto por água quanto por óleo (material chamado de anfifílico).

Quando esse material é adicionado a misturas de óleo e água, como o petróleo recém extraído de plataformas (offshore) ou à simples aplicação de um campo magnético (imã), o material consegue unir as bolhas de óleo (ou água) em bolhas cada vez maiores, até que o óleo e a água estejam completamente separados.

"A aplicação é muito simples, o custo é até cinco vezes menor que qualquer produto similar do mercado e a separação magnética evita qualquer contaminação do petróleo ou água", destaca o pesquisador. Com isso, o nanoamphil dribla a contaminação ambiental que ocorre com os atuais produtos comercializados.

A preocupação com as questões ambientais também foi o norte para o desenvolvimento do terceiro produto criado a partir da SNG. "Um dos grandes problemas atuais da indústria petrolífera é reduzir a quantidade de emissões de contaminantes sulfurados, nocivos ao meio ambiente. Para isso, eles devem reduzir a concentração desses compostos no combustível, como os que têm como base o enxofre".

O Fentec, desenvolvido no GTA, também tem afinidade com água e óleo e é capaz de retirar o enxofre e seus compostos de maneira mais efetiva durante a fase emulsionada, como é chamada a mistura de petróleo e água. O Fentec é capaz de oxidar esses compostos, tornando-os materiais com menor afinidade pelo petróleo.

A pesquisa começou em 2003, com testes realizados no laboratório do GTA na UFMG e nos laboratórios da Verti Ecotecnologias, em Belo Horizonte. De acordo com o farmacêutico e mestre em engenharia ambienta Aluir Dias, alguns testes começarão a ser feitos em parceria com o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento Leopoldo Américo Miguez de Mello (Cenpes) da Universidade Federal do Rio de Janeiro. O GTA, da UFMG, desenvolve projetos em nanotecnologia para a Petrobras, mas nada diretamente ligado a esses produtos. Os próximos passos